Pular para o conteúdo principal

Postagens

por que as bonecas/andróides sexuais representam uma ameaça social?

“Cada buraco apresenta texturas diferentes e únicas, curvas e rigidezes para proporcionar sensações intensas que são impossíveis de alcançar mesmo através da penetração real” . é  essa a propaganda da Aura Dolls, fabricante de bonecas sexuais em Toronto. já era possível escolher altura, peso (que deve variar de acordo com os seios, afinal TODAS são magras), cor e textura do cabelo, cor dos olhos, medidas e formatos de seios/cintura/quadril/bunda/coxas e até mesmo unhas, tamanho, forma e cor dos lábios vaginais, bem como do ânus. era possível, ainda, encomendar um modelo baseado em fotografias de alguém ou de um famoso.  mas não basta; as bonecas sexuais agora são dotadas de IA .  são várias as empresas, como a Sinthetics, que permitem que os clientes modelem, além da aparência, também a “personalidade” das bonecas (agora andróides). em 2017 foi lançada a Harmony, capaz de mexer a cabeça, os olhos, e de falar por meio de um aplicativo conectado a um tablet; o aplic...

como os estados psicológicos afetam o sistema imunológico

apesar de ser secular a hipótese de que estados psicológicos podem resultar em doenças, apenas recentemente se fizeram possíveis os instrumentos e mecanismos adequados para explicar objetivamente as interações. assim, o termo "psiconeuroimunologia" foi introduzido em 1981 por Robert Ader, para definir o campo da ciência que estuda a interação entre o sistema nervoso central (SNC) e o sistema imunológico. Mello Filho (1983) aponta o sistema imunológico como o grande elo entre os fenômenos psicossociais e os vários terrenos da patologia humana, como as doenças de hipersensibilidade, auto imunes, infecciosas e neoplásicas. Syvlahti (1987) cita que, além da auto-regulação do sistema imune protegendo organismo, ele está também sobre regulação externa, especialmente dos sistemas endócrino e nervoso. foi Hans Selye (1936) quem primeiro utilizou o termo "stress" para traduzir a capacidade do indivíduo (que pode ser mais ou menos predisposto) de resistir aos choques emociona...

por que eu não me chamo neurodiversa

* devido ao contexto, termos como “psicopatologias” ou “transtornos mentais” foram substituídos por “condições”. a semântica dos transtornos mentais/de personalidade é uma área constantemente reformulada; a semiologia psi pede essa busca incessante por termos mais precisos e menos estigmatizantes para os sinais, sintomas e diagnósticos, de modo que os significantes se alteram ou caem em desuso em questão de década.  os conceitos acordados ultrapassam a esfera estritamente de denominação neutra ou passiva, e se configuram como entidades sobretudo sociais, que nascem e fazem nascer discursos . assim, se relacionam diretamente com a percepção e a atitude frente à doença, por a) buscarem traduzir em termos comuns (compartilháveis) experiências e sofrimentos tão íntimos, isto é, culturalizar o psíquico e b) demandarem excessivo esforço devido a uma psicofobia estrutural que instrumentaliza e deturpa sintomas e diagnósticos. na década de 1990, a antropóloga autista Judy Singe...

o cérebro não cria o homem: o "sujeito cerebral" e o reducionismo da neurocultura

o zeitgeist do século XVII trouxe consigo o reducionismo mecanicista , no qual todo humano seria explicável por mecanismos físicos. hoje, quatro séculos depois, essa posição parece não ter sido superada - e apenas atualizada através da genética e das neurociências. friso que o problema recai não no conhecimento-objeto, mas sim na tendência instrumentalizadora que reflete o autoritarismo e o sensacionalismo científicos; isso porque o termo "neuro " foi convertido atualmente em um significante mestre , ou seja, um significante que explica quase tudo, uma etiqueta de garantia de que há nisso um saber seguro. nossa fantasia de época é o sistema cibernético - e a insistência de assemelhar o cérebro a um computador, e o humano a um andróide; assim persiste a hipótese subjacente de que tudo o que somos tem sua localização : o sujeito é topográfico, isto é, insiste-se num mapping ou escaneamento que busca o humano nos neurônios e genes. então despontam milhares de teorias sobre ge...

psicopatia e julgamentos morais: evidências neurobiológicas

“psicopata” não é uma categoria descritiva, mas sim uma medida variável que se manifesta através de traços; a escala PCL-R (psychopathy checklist-revised)  de Hare lista: com relação a fatores interpessoais/afetivos : lábia/charme superficial; senso grandioso de autoestima; mentira patológica; ausência de remorso ou culpa; afeto superficial; crueldade/falta de empatia; falha em aceitar responsabilidade pelas próprias ações; comportamento sexual promíscuo; ludibriador/manipulador. com relação ao estilo de vida desviante ou antissocial : falta de objetivos realistas de longo prazo; impulsividade; irresponsabilidade; versatilidade criminal; necessidade de estimulação; estilo de vida parasita; controle deficiente do comportamento; problemas comportamentais precoces; muitas relações conjugais de curta duração; revogação da liberação condicional; delinquência juvenil. esses traços podem estar presentes desde a infância, já que a psicopatia se trata de um desvio relacionado à hereditaried...

a personalidade como-se: o borderline na clínica psicanalítica de Deutsch e Winnicott

Abordadas por Deutsch (1942) em relação à “ personalidade como-se”, as noções de falso self ganham notoriedade com Winnicott (1949/1960), sendo centrais para O Eu Dividido de Laing (1960) e utilizadas como chave para compreensão dos tipos esquizofrênicos na clínica psicanalítica. Antes de tudo, uma consideração íntima: costumo interpretar as argumentações psicanalíticas tradicionais com um certo resguardo de licença poética; isso porque se tratam de processos esmiuçados de maneira profundamente complexa, mas que não se perdem da própria lógica; apesar do caráter de pseudociência que reitero , o discorrer psicanalítico  assume um modo de prosa poética, irmanado à abordagem fenomenológica que foca no sujeito doente como existência válida. A clínica confere dignidade àquele que sofre, centralizando a totalidade da pessoa observada numa outra linguagem. A evolução sócio-histórica do transtorno de personalidade borderline lhe conferiu o título de “personalidade como-se” (tamb...