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Mostrando postagens com o rótulo crise

08.04

Primeiro você não consegue escrever. O que se quer dizer parece contido entre barricadas, e embora você seja obrigada a engolir de volta as ideias distorcidas e protestantes, ainda não há o que se preocupar. Sua resistência ao que dá errado foi treinada em expansão. Mas come pelas beiradas , e logo você não consegue ler. Desinteressa pelas cadeias de palavras, uma irritação que só se aguda conforme voce perde o fio da meada da semântica, e decodifica automaticamente os signos sem ter ideia do que querem dizer. Nenhuma daquelas palavras parece guardar conexão com seu mundo; nesse ínterim de agonia concisa não há espaço pra comunicação. Você percebe o domo descendo . O ar rarefeito, pausado na traquéia aninhado no grito. Você sente o vácuo se enroscando nos cabelos, nos objetos, nas flores.  grito algum pode nascer.  Mas é somente quando não sou capaz de pensar que tenho a convicção de que a redoma retornou; ergo a cabeça dos lençóis febris e suspiro cara ao vidro embaçado. Não...

07.04

às vezes horas. noutras, dias.  quando tudo está sob controle eu sou privilegiada, e o ataque sorrateiro só vem à noite. me dou cabo, respondo com mais ataque; se esse rosnar parte do meu corpo, é a ele que me volto com igual violência.  a violência primordial é existir a partir de um inconsciente-centrífuga que sim e não  - o cabelo no chão faz cócegas nos meus pés descalços e há pele debaixo das minhas unhas retornam os bizarros odores que ninguém mais testemunha. notas de azedume, putrefação e mofo em mim. sei que é um anúncio - ela vem vindo. anteontem funcionei; dormi um bocado mais, minha pele tinha um tom fresco. as pálpebras como toldos recolhidos e meus olhos atentos e rápidos. estudei, li, consegui contatar algumas pessoas. ri, pensei que duraria isso e não a peste lá fora, resistindo nas superfícies e empilhando corpos ainda assustados por, sem prévio aviso, não serem mais pessoas com família e planos. corpos quaisquer sem dignidade de despedida, co...

joio

Mesmo depois eu pouco falo . Meu rosto petrifica inexpressivo, mas sinto meus olhos e boca escorregarem pelos cantos, como um clichê de desânimo de um palhaço. Eu me sinto mesmo performática - dissociando, talvez. É curioso que quem não dissocia sabe dar nomes e caracterizar, mas não nós que nos perdemos . Então eu nunca soube como é, mesmo sentindo. Nem sempre se percebe - o externo desbota e se duvida mesmo do mais trivial. O “si mesmo” deveria ser uma dessas coisas. Nada em mim parece real; nem mesmo tudo aquilo que considero conquista nos últimos meses de terapia. Eu não passo de uma mentirosa compulsiva enganando a mim mesma, e isso fere mais por não ser minha intenção. Eu quero construir amizade comigo. Ou qualquer relação e vínculo que não esse .  Quero fitar meu reflexo por mais que um descuido - e pensar que talvez eu não seja assim tão ruim . Como uma semente ruim, um joio bíblico. Durante esses anos eu matei repetidas vezes, às vezes consciente, mas g...