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A psicopatia e a "medicalização do mal"

O conceito de psicopatia, mesmo atualizado sob a égide supostamente neutra e objetiva do Transtorno de Personalidade Antissocial, ainda se ancora nas justificativas históricas de desvio de caráter e anomalia moral. Henriques (2009, 2014) aborda a psicopatia como a própria " medicalização do mal operacionalizada pela psiquiatria"  e questiona: como proceder nesse caso, na qual os seus signos praticamente se reduzem à maldade e à crueldade e para a qual não há tratamento médico eficaz? A partir de uma perspectiva fenomenológica da psicopatologia,  a psicopatia refletiria uma alteração primária da “consciência moral” (Gewissen é o termo em alemão), na ausência de qualquer “alteração da consciência da realidade” (lucidez / vigilância) ou da “consciência do Eu” (autoorientação) . Ou seja, os considerados "psicopatas" teriam plena consciência de suas transgressões, mas também um completo desprezo por regras e normas morais. Quanto a isso, pontuo: A natureza desse desprezo...

As neurociências da violência e do crime

A evolução dos aparatos biotecnológicos de mapeamento e imagem cerebrais suscitam a busca por uma determinação biológica do mal estar contemporâneo. "A hierarquização do cérebro como substrato empírico privilegiado na determinação da conduta arrisca desqualificar o inefável das montagens psíquicas intersubjetivas, afora a chance de negligenciar fatores sociais na origem de atitudes violentas”. (Arreguy, 2008) Concomitantemente, os avanços da psicofarmacologia, desde meados do século XX, conduziram à medicalização de descontroles emocionais comuns, tratando-os como transtornos neurofisiológicos; tal movimento traduz o paradigma do sujeito cerebral , cujas tendências localizacionista e reducionista se assemelham à antiga frenologia. O transtorno mental - vulgarizado como loucura -, foi, desde sempre, bode expiatório para sentimentos e condutas indesejáveis e reprováveis. O homem mau era louco, e vice-versa. Nisso se apoia a lógica psiquiátrica organicista do monstro moral: em 1857...

Pedofilia: o transtorno psiquiátrico e as influências culturais

Certamente a palavra “pedófilo” evoca a imagem de um homem de cerca de meia-idade, solitário e arbitrariamente mau. Embora a cultura universalmente fetichize traços infantis e adolescentes (principalmente em mulheres), e, ainda, em dezenas de países orientais seja comum o casamento entre crianças e adultos - e de fato o padrão de desejo sexual seja por isso influenciado -, a pedofilia consta no DSM-V como perversão sexual caracterizada pela atração sexual por crianças pré-púberes, gerando “sofrimento e prejuízo significativo por fantasias ou atitudes no nível comportamental, incluindo o consumo de pornografia infantil e/ou cometer crimes de abuso sexual infantil”; o portador deve ter ao menos 16 anos de idade e ser, pelo menos, cinco anos mais velho do que a criança ou crianças. A pedofilia possui tipo exclusivo e tipo não-exclusivo, em função de haver atração também por adultos (Schiltz et al., 2007).  Estima-se que aproximadamente 1% da população mundial preencha os crité...

cries unheard

Com a incidência de casos divulgados e sensacionalizados pela mídia sobre crianças envolvidas em crimes graves, a ideia de malignidade inerente volta à tona, como sempre quando se deseja desculpar as razões concretas do hediondo - e a responsabilidade do Estado quanto a isso. Reitero que investigar e elencar as bases e justificativas dos crimes não minimiza a gravidade deles ou a responsabilidade dos réus. Mas é um dever social, e as autoridades policiais, judiciais e psiquiátricas deveriam ser as primeiras a se comprometer, seguidas da opinião pública. Não é o que acontece. Existe uma tendência a embasar os motivos como psicopatia, ignorando não apenas a não-utilização do termo como diagnóstico, e sim como instrumento forense, como também o fato de que os traços psicopáticos se inserem em psicopatologias - ativadas por desequilíbrios neurológicos e exposição à violência precoce. O abuso familiar ou outros tipos de agressão empreendidas na infância são listados como os m...

Revisão sobre TPA e traços psicopáticos

Os transtornos de personalidade configuram um espectro de disposições psíquicas que dificultam ou mesmo inviabilizam relacionamentos interpessoais; o TPA (Transtorno de Personalidade Antissocial) ainda se mostra um dos TP mais complexos de ser tratado, e é comumente confundido com a psicopatia - esta não se trata de um diagnóstico, mas de um termo psiquiátrico-forense -, o que atua fortalecendo os preconceitos sobre a sintomática do TPA. A mídia colabora para a introjeção da ideia de que o TPA - rotulado sempre como psicopatia - é um desvio de caráter simplificado pelo fato inexorável de se ser terrivelmente mau.  De acordo com o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-V, 2014), o TPA caracteriza-se por “ uma insensibilidade do indivíduo em relação ao direito dos demais e a falta de empatia, que surgem na infância ou no início da adolescência e mantêm-se na vida adulta. Outros elementos centrais desse transtorno são a falsidade, a manipulação e o eg...