Quando foi descoberto que a determinação social influenciava tanto quanto a biológica na manifestação e no curso dos transtornos mentais, os estudos se voltaram para esse externo - como tal cotidiano, quase sempre despercebido, pode se tornar patológico? Diferenças extremas de prevalência e de natureza dos transtornos foram constatadas entre os gêneros: mas quanto disso seria de responsabilidade da neuroanatomia, e quanto se daria pela imposição de papéis sociais? (é importante frisar que ambos os fatores se influenciam mutuamente). A literatura está repleta de antigas doenças específicas das mulheres; a “histeria” descrita por Freud no início do século XX é decerto a mais conhecida. Irigaray (2017) aprofunda sua crítica à psicanálise na patologização de reações naturais à opressão: a histeria (cuja etimologia em grego vem de “útero”) não seria uma loucura feminina, tampouco uma “inveja do pênis ”, e sim uma expressão nervosa e deprimida da não-adaptação à funções arbitrári...