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Mostrando postagens com o rótulo psicanálise

a personalidade como-se: o borderline na clínica psicanalítica de Deutsch e Winnicott

Abordadas por Deutsch (1942) em relação à “ personalidade como-se”, as noções de falso self ganham notoriedade com Winnicott (1949/1960), sendo centrais para O Eu Dividido de Laing (1960) e utilizadas como chave para compreensão dos tipos esquizofrênicos na clínica psicanalítica. Antes de tudo, uma consideração íntima: costumo interpretar as argumentações psicanalíticas tradicionais com um certo resguardo de licença poética; isso porque se tratam de processos esmiuçados de maneira profundamente complexa, mas que não se perdem da própria lógica; apesar do caráter de pseudociência que reitero , o discorrer psicanalítico  assume um modo de prosa poética, irmanado à abordagem fenomenológica que foca no sujeito doente como existência válida. A clínica confere dignidade àquele que sofre, centralizando a totalidade da pessoa observada numa outra linguagem. A evolução sócio-histórica do transtorno de personalidade borderline lhe conferiu o título de “personalidade como-se” (tamb...

A aproximação entre fenomenologia-existencial e clínica psicológica

Quando Jaspers, em 1913, funda a Psicopatologia como ciência autônoma (e portanto desvinculada da clínica psiquiátrica), utiliza o  método fenomenológico,  compreensivo e descritivo, criando assim a “ psicopatologia fenomenológica ”, também chamada de Psicopatologia Geral. Aquilo que era concebido apenas como sintomatologia (e portanto objetivado e distanciado de quem o apresentava) é ampliado para a compreensão de vivência , com a preocupação de serem avaliadas exclusivamente a partir do relato e da visão do paciente (os dados em si mesmos). Como ciência predominantemente descritiva, a  psicopatologia fenomenológica não se ocupa com as causas das manifestações, embora seu emprego seja um pré-requisito para qualquer investigação causal. Essa abordagem compreende que "o discurso sobre o sofrimento psíquico não é uníssono, mas sim polifônico, cujas ressonâncias ecoam em diversos modelos explicativos dos transtornos mentais". (Henriques, 2010) Desde 1980, o discurso bio...

O DSM e o problema dos nomes sem sujeitos

" Diagnóstico desligado de uma reflexão semiológica é apenas descrição sem narrativa. Diagnóstico sem intervenção é apenas classificação sem ordenamento. Diagnóstico desprovido de etiologia é apenas redescrição sem finalidade. A razão diagnóstica depende, portanto, do funcionamento articulado dessas categorias como pressuposições dos atos clínicos, o chamado ato diagnóstico - o que caracterizaria uma ultrapassagem do campo diagnóstico".  Dunker, 2011 Mais fortemente a partir de sua terceira edição (1980), o DSM  (Diagnostic and Statistic Manual)  pretende um caráter universal sustentado no ateoricismo, no descritivismo e nas estatísticas. No entanto, esse ateoricismo lhe confere uma utilidade operacional, em que classificações são instituídas apenas com base no observável e empiricamente acessível dos transtornos psíquicos, ignorando o olhar e o contato clínicos, bem como a narrativa pessoal do sujeito e a dimensão integrada da possível patologia.  Ao ser convertido ...

A psicopatia e a "medicalização do mal"

O conceito de psicopatia, mesmo atualizado sob a égide supostamente neutra e objetiva do Transtorno de Personalidade Antissocial, ainda se ancora nas justificativas históricas de desvio de caráter e anomalia moral. Henriques (2009, 2014) aborda a psicopatia como a própria " medicalização do mal operacionalizada pela psiquiatria"  e questiona: como proceder nesse caso, na qual os seus signos praticamente se reduzem à maldade e à crueldade e para a qual não há tratamento médico eficaz? A partir de uma perspectiva fenomenológica da psicopatologia,  a psicopatia refletiria uma alteração primária da “consciência moral” (Gewissen é o termo em alemão), na ausência de qualquer “alteração da consciência da realidade” (lucidez / vigilância) ou da “consciência do Eu” (autoorientação) . Ou seja, os considerados "psicopatas" teriam plena consciência de suas transgressões, mas também um completo desprezo por regras e normas morais. Quanto a isso, pontuo: A natureza desse desprezo...

O eu dividido (Laing, 1960) - parte II

A segunda parte da obra discute o que vem a ser o “falso- self” do esquizóide. 4 . O self encarnado e desencarnado Sujeitos às inseguranças ontológicas anteriormente mencionadas, a questão agora deve ser entender de que forma é possível o relacionamento dessa pessoa consigo mesma e com as demais. Tal “ split”, condição existencial da psicose,  ocorre quando o indivíduo começa a identificar-se demasiado exclusivamente com a parte que ele sente desencarnada. Mas o que viria a ser esse “desencarne”? O self encarnado e desencarnado Tratam-se de dois quadros existenciais básicos;  pessoas encarnadas sentem que o próprio corpo está vivo, é real e substancial (sentindo a si mesmo da mesma forma); no caso das pessoas desencarnadas,  em momentos de tensão, as mesmas se dissociam parcialmente do próprio corpo - e mesmo agressões a esse corpo podem não causar mágoa ao indivíduo, invocando menos medo que em uma pessoa comum, porque aparentemente nada se tem a perder que e...