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Mostrando postagens com o rótulo neurociência

o cérebro não cria o homem: o "sujeito cerebral" e o reducionismo da neurocultura

o zeitgeist do século XVII trouxe consigo o reducionismo mecanicista , no qual todo humano seria explicável por mecanismos físicos. hoje, quatro séculos depois, essa posição parece não ter sido superada - e apenas atualizada através da genética e das neurociências. friso que o problema recai não no conhecimento-objeto, mas sim na tendência instrumentalizadora que reflete o autoritarismo e o sensacionalismo científicos; isso porque o termo "neuro " foi convertido atualmente em um significante mestre , ou seja, um significante que explica quase tudo, uma etiqueta de garantia de que há nisso um saber seguro. nossa fantasia de época é o sistema cibernético - e a insistência de assemelhar o cérebro a um computador, e o humano a um andróide; assim persiste a hipótese subjacente de que tudo o que somos tem sua localização : o sujeito é topográfico, isto é, insiste-se num mapping ou escaneamento que busca o humano nos neurônios e genes. então despontam milhares de teorias sobre ge...

A neurociência prova que o livre-arbítrio é uma ilusão?

Costuma-se conceber livre-arbítrio como a possibilidade de escolher baseando-se unicamente na própria vontade e sem qualquer influência externa (causas determinantes). Quanto a isso: 1) sendo o homem o produto de uma  triangulação dinâmica biopsicossocial  (cujos elementos necessariamente interagem e se retroalimentam), o ambiente tanto molda o sujeito quanto é reflexo dele. Assim, é realmente possível apartar-se das variáveis externas no processo de escolha?  2) o fato de as opções disponíveis aos sujeitos serem elas próprias filtradas por influências sociais, culturais e econômicas, e portanto resultarem muitas vezes em possibilidades limitadas e escolhas previamente definidas, é prova suficiente de que o livre-arbítrio é uma ilusão? 3) ainda que seja possível fazer o que queremos,  até que ponto realmente queremos o que queremos? Três trabalhos neurocientíficos recentes (Soon, Brass, Heinze e Haynes, 2008), revisando o experimento de Libet (1983) através de fMRI (...

O modelo biopsicossocial (Engel, 1977), a psiconeuroimunologia e a Medicina Integrada

O modelo biopsicossocial de Engel (1977), bem como suas evidências na Psiconeuroimunologia, evidenciam que o adoecimento humano é, antes de tudo, uma  forma de expressão particular , caracterizada pela  inter-retro-reação  das dimensões celulares, teciduais, orgânicas, assim como interpessoais, ambientais e históricas, concebendo o sujeito de forma holística. O objetivo terapêutico da medicina não deve mais ser restituir a “normalidade” anatomofisiológica do corpo, e sim resgatar a autonomia  comprometida, voltando-se assim para a dialética da prevenção de doenças e da promoção da saúde.  Na atualidade, o modelo de Engel encontra possibilidade principalmente na  clínica , cuja característica fundamental é o foco na  humanização , onde a  "observação (visão externa), introspecção (visão interna), e o diálogo (entrevista) são a base da  tríade metodológica para o estudo”,  e no modelo de  Medicina Integrada , cuja função é prom...

“A loucura da fome”: neuropsicologia e Holodomor (1931 a 1933)

A loucura, segundo Basaglia (1985), t em duas faces: a experiência psicopato lógica e a condição de exclusão. E por mais que a fome pareça se reduzir a uma dimensão biológica e psicológica, ela deriva da condição de miséria . A exclusão social de nada possuir, nem mesmo o básico como trabalho, moradia ou alimentos, impede a compreensão de si mesmo como pessoa humana. A condição de privação extrema é relatada cientificamente como predecessora de distúrbios mentais , cuja maior incidência nos miseráveis e desnutridos deve ser compreendida a partir da articulação de elementos cognitivos, afetivos e sociais . O primeiro estudo que se utilizou de técnica de neuroimagem para analisar a associação entre pobreza e função cerebral foi realizado em 2015 por Kimberly Noble, e desde então tem-se evidências de que a pobreza e a desnutrição afetam a morfologia cerebral e o desenvolvimento dos sistemas de atenção, memória de trabalho, flexibilidade cognitiva, linguagem e sistema regulatório - refer...

As neurociências da violência e do crime

A evolução dos aparatos biotecnológicos de mapeamento e imagem cerebrais suscitam a busca por uma determinação biológica do mal estar contemporâneo. "A hierarquização do cérebro como substrato empírico privilegiado na determinação da conduta arrisca desqualificar o inefável das montagens psíquicas intersubjetivas, afora a chance de negligenciar fatores sociais na origem de atitudes violentas”. (Arreguy, 2008) Concomitantemente, os avanços da psicofarmacologia, desde meados do século XX, conduziram à medicalização de descontroles emocionais comuns, tratando-os como transtornos neurofisiológicos; tal movimento traduz o paradigma do sujeito cerebral , cujas tendências localizacionista e reducionista se assemelham à antiga frenologia. O transtorno mental - vulgarizado como loucura -, foi, desde sempre, bode expiatório para sentimentos e condutas indesejáveis e reprováveis. O homem mau era louco, e vice-versa. Nisso se apoia a lógica psiquiátrica organicista do monstro moral: em 1857...