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Breve histórico da “loucura”: da pré-história à clínica psiquiátrica moderna de Kraepelin

Plurissignificativa, a " loucura " reivindica espaço desde a constituição das primeiras sociedades humanas, quando a convivência e a funcionalidade do cotidiano passaram a destacar incidências discrepantes ou peculiares no comportamento de determinados indivíduos. É apenas na virada do século XVIII para o XIX que a loucura ganha status de patologia mental , sendo apropriada pelas ciências psiquiátricas e psicológicas modernas. As sociedades pré-históricas e antigas possuíam uma concepção sobrenatural da loucura (cujos resquícios perpassam a história da patologia mental e alcançam, estupidamente, o século XXI): a mesma era obra de maus espíritos e de possessão. Foram encontrados fósseis do período Neolítico cujos crânios perfurados fornecem indícios de psicocirurgias primitivas, as trepanações, com intenção primordial de exorcismo. Na Grécia e Roma Antigas (500 a. C. a 500 d. C.), as explicações naturais passaram a mesclar-se às explicações sobrenaturais. Hipócrates de Cós ...

“A loucura da fome”: neuropsicologia e Holodomor (1931 a 1933)

A loucura, segundo Basaglia (1985), t em duas faces: a experiência psicopato lógica e a condição de exclusão. E por mais que a fome pareça se reduzir a uma dimensão biológica e psicológica, ela deriva da condição de miséria . A exclusão social de nada possuir, nem mesmo o básico como trabalho, moradia ou alimentos, impede a compreensão de si mesmo como pessoa humana. A condição de privação extrema é relatada cientificamente como predecessora de distúrbios mentais , cuja maior incidência nos miseráveis e desnutridos deve ser compreendida a partir da articulação de elementos cognitivos, afetivos e sociais . O primeiro estudo que se utilizou de técnica de neuroimagem para analisar a associação entre pobreza e função cerebral foi realizado em 2015 por Kimberly Noble, e desde então tem-se evidências de que a pobreza e a desnutrição afetam a morfologia cerebral e o desenvolvimento dos sistemas de atenção, memória de trabalho, flexibilidade cognitiva, linguagem e sistema regulatório - refer...

Transtorno mental: natureza biológica ou construto social?

1. COMO CONSTRUTOS SOCIAIS: A ANTIPSIQUIATRIA E A FABRICAÇÃO DA LOUCURA  Essa perspectiva destaca a  instrumentalização  da condição da loucura como lugar de exclusão social, desde a criação dos primeiros manicômios no século XVII como depósitos de pessoas indesejáveis às vias públicas. A passagem do século XIX ao XX traz consigo novas tecnologias de pesquisa e tratamento e, consequentemente, novas concepções sobre a doença mental. O horror antiético da Segunda Guerra Mundial é o marco para questionamentos sobre o humano, e seus feridos e mortos possibilitam investigações sobre diversas enfermidades, notadamente as neurológicas. Ao mesmo tempo, a ascensão da ideologia neoliberal capitalista converge para a construção da autonomia e da individualidade como respostas às estruturas de competitividade e propriedade privada. A Declaração Universal dos Direitos Humanos em 1948 surge com o objetivo de universalizar a condição de dignidade da vida humana incondicionalmente. Nesse...

O eu dividido (Laing, 1960) - parte II

A segunda parte da obra discute o que vem a ser o “falso- self” do esquizóide. 4 . O self encarnado e desencarnado Sujeitos às inseguranças ontológicas anteriormente mencionadas, a questão agora deve ser entender de que forma é possível o relacionamento dessa pessoa consigo mesma e com as demais. Tal “ split”, condição existencial da psicose,  ocorre quando o indivíduo começa a identificar-se demasiado exclusivamente com a parte que ele sente desencarnada. Mas o que viria a ser esse “desencarne”? O self encarnado e desencarnado Tratam-se de dois quadros existenciais básicos;  pessoas encarnadas sentem que o próprio corpo está vivo, é real e substancial (sentindo a si mesmo da mesma forma); no caso das pessoas desencarnadas,  em momentos de tensão, as mesmas se dissociam parcialmente do próprio corpo - e mesmo agressões a esse corpo podem não causar mágoa ao indivíduo, invocando menos medo que em uma pessoa comum, porque aparentemente nada se tem a perder que e...