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Mostrando postagens com o rótulo depressão

voltei (13.05)

a experiência dos estados depressivos não é percebida como algo de errado; dizer isso suporia que existe um estado diferente e variado desse. na verdade toda experiência parece apenas conferir contorno, e essa sensação (à prova do nome) é um núcleo composto. o tempo fica oco.  tem-se enfraquecida a auto-percepção elementar de ser, por si mesmo, real. todo o horror da dormência ininterrupta escapa da forma que o conceito poderia conferir - assim, não se pode passar à frente. me questiono se alguém um dia foi de fato capaz de falar da depressão... semelhante à uma toxina que cobre por completo e dissimuladamente o chão que se pretende pisar. sensação ideia movimento e ação, qualquer fluxo cabal é alcançado, infectado, desfalcado, desfalecido. e não, ainda não é o bastante relatar em termos de enfermidade física, porque dessas se conhece a causa, a maneira de manifestação, o tratamento. dessas existe um desenho, uma imagem... dessas há a ideia. e a depressão enquanto atuante...

07.04

às vezes horas. noutras, dias.  quando tudo está sob controle eu sou privilegiada, e o ataque sorrateiro só vem à noite. me dou cabo, respondo com mais ataque; se esse rosnar parte do meu corpo, é a ele que me volto com igual violência.  a violência primordial é existir a partir de um inconsciente-centrífuga que sim e não  - o cabelo no chão faz cócegas nos meus pés descalços e há pele debaixo das minhas unhas retornam os bizarros odores que ninguém mais testemunha. notas de azedume, putrefação e mofo em mim. sei que é um anúncio - ela vem vindo. anteontem funcionei; dormi um bocado mais, minha pele tinha um tom fresco. as pálpebras como toldos recolhidos e meus olhos atentos e rápidos. estudei, li, consegui contatar algumas pessoas. ri, pensei que duraria isso e não a peste lá fora, resistindo nas superfícies e empilhando corpos ainda assustados por, sem prévio aviso, não serem mais pessoas com família e planos. corpos quaisquer sem dignidade de despedida, co...

na ala psiquiátrica

Fui internada no final de 2018. Eu estava em crise desde o primeiro semestre de 2016, mas só percebi meses depois. O humor deprimido não variava muito, ainda que o TPB tenha sua base em oscilações bruscas e breves dos estados humorais. Era como se dentro daqueles desânimo e vazio crônicos eu apresentasse episódios pouco nítidos, mas muito impulsivos, de raiva e tristeza, e nesses momentos tudo em que eu conseguia pensar era me machucar e dar um fim nisso. A automutilação acontecia uma ou duas vezes na semana e as tentativas de suicídio eram também frequentes. Eu não tinha perspectiva nenhuma de um futuro em que isso amenizasse, então toda oportunidade que eu tinha, direta ou indiretamente, tentava me ferir. Os diagnósticos que eu havia recebido até então eram errados e eu tomava medicações que não apenas não resolviam os problemas, como intensificavam os sintomas e me mortificavam fisicamente. Então eu parava por conta própria e quando se tornava insustentável um outro médico p...

joio

Mesmo depois eu pouco falo . Meu rosto petrifica inexpressivo, mas sinto meus olhos e boca escorregarem pelos cantos, como um clichê de desânimo de um palhaço. Eu me sinto mesmo performática - dissociando, talvez. É curioso que quem não dissocia sabe dar nomes e caracterizar, mas não nós que nos perdemos . Então eu nunca soube como é, mesmo sentindo. Nem sempre se percebe - o externo desbota e se duvida mesmo do mais trivial. O “si mesmo” deveria ser uma dessas coisas. Nada em mim parece real; nem mesmo tudo aquilo que considero conquista nos últimos meses de terapia. Eu não passo de uma mentirosa compulsiva enganando a mim mesma, e isso fere mais por não ser minha intenção. Eu quero construir amizade comigo. Ou qualquer relação e vínculo que não esse .  Quero fitar meu reflexo por mais que um descuido - e pensar que talvez eu não seja assim tão ruim . Como uma semente ruim, um joio bíblico. Durante esses anos eu matei repetidas vezes, às vezes consciente, mas g...

Trabalho, pobreza e capitalismo: determinantes sociais do transtorno mental

Não existe neutralidade do trabalho em relação à saúde mental. Pesquisas de 2019 apontam que: 1. O Brasil é o país com maior taxa de ansiosos - 9,3% da população, e 86% dos brasileiros apresentam algum transtorno mental. 2. Segundo a OMS, a taxa de suicídios no país aumentou 7%, ao contrário do índice mundial, que caiu 9,8%.  3. Fátima Marinho,  diretora da Secretaria de Vigilância em Saúde do Ministério da Saúde, estima que haja um aumento do número de suicídios em cerca de 20% a cada ano. 4. De acordo com o IBGE, a taxa de desemprego no Brasil ficou em 11% em dezembro, atingindo 11,6 milhões de pessoas - número provavelmente muito superior, devido ao aumento estrondoso de subempregos. O país enfrenta picos de desemprego desde 2017. 5. A estimativa é que os transtornos mentais afetem entre 500mi e 1bi de pessoas no mundo, sendo difícil contabilizar com precisão devido à invisibilidade da doença mental, à condição econômica que não permite tratamento e à não procura por a...

esses issos

“ Hiper-reatividade”. É esse o termo que usam pra falar do que, na prática, nunca se define pra mim.  O que mutila num rompante. Um instante e a gravidade me escapa; o mais básico , o banal, o trivial some, num sopro. O humor, esse bordado delicado que vou fiando sem jeito, se retorce e enrola, perde as pontas, vira nós, corto a peça toda, não quero continuar. Muito trabalho. Não sei fazer isso. Não quero mais tentar. Dói . As vezes, uma palavra que ressoa mal. Em tom ou ambiguidade. Falta de atenção corriqueira. A rotina que consome. Meus focos são egoístas e eu não sei olhar pluralmente. Não sei sobre o desinteresse, a pouca importância, o depois. E isso não tem nada a ver com romantismo. Isso é sobre doença. Ler e tentar abordar objetivamente é a forma que encontro de me distanciar um pouco da agonia intermitente e transformar em teoria. Mas entre a “hiper-reatividade” que consta no artigo e as minhas conclusões paranóicas dos últimos dois minutos sobre estar...