Mesmo depois eu pouco falo.
Meu rosto petrifica inexpressivo, mas sinto meus olhos e boca escorregarem pelos cantos, como um clichê de desânimo de um palhaço.
Eu me sinto mesmo performática - dissociando, talvez. É curioso que quem não dissocia sabe dar nomes e caracterizar, mas não nós que nos perdemos. Então eu nunca soube como é, mesmo sentindo. Nem sempre se percebe - o externo desbota e se duvida mesmo do mais trivial. O “si mesmo” deveria ser uma dessas coisas.
Nada em mim parece real; nem mesmo tudo aquilo que considero conquista nos últimos meses de terapia. Eu não passo de uma mentirosa compulsiva enganando a mim mesma, e isso fere mais por não ser minha intenção.
Eu quero construir amizade comigo.
Ou qualquer relação e vínculo que não esse.
Quero fitar meu reflexo por mais que um descuido - e pensar que talvez eu não seja assim tão ruim.
Como uma semente ruim, um joio bíblico.
Durante esses anos eu matei repetidas vezes, às vezes consciente, mas geralmente não.
Matei cruelmente o que eu seria e aquilo que eu me mostrava, pela mágoa da discrepância.
Não importava o esforço, o estudo, os inquéritos internos; sempre esse humor acidentado. e então eu subitamente era “desativada”. a apatia vencia o confronto e eu me tornava outra vez totalmente improdutiva. chamavam preguiça enquanto eu sofria instantes ou dias de uma velhice precoce, surrupiando toda energia, vontade, iniciativa.
decepcionava quem havia em volta, por não haver compreensão sobre recaída.
Minha cabeça era quente e não parava. A culpa parecia socar os lobos,
Meu estômago queimava também e doía o tempo todo,
E não me restava qualquer energia pra convivência ou socialização. Percebendo mas incapaz de evitar, eu destratava e mentia e fugia e brigava, sendo a fuga a decisão mais coerente. Mas quando questionada, a raiva por não entender e menos ainda conseguir me fazer entender explodia, como se não houvesse um dispositivo de gradação, ou uma válvula que eu me permitisse o controle de escancarar ou não. Era instintivo e espontâneo, o que tão instantaneamente quanto acontecia me deprimia profundamente - novamente meu problema com gradações e válvulas - por concluir que eu era isso, apenas isso, naturalmente monstruosa.
Mas o ódio supremo era, sobretudo, de mim - por não entender, por não solucionar, por não criar paliativos, o caminho mais óbvio era a culpa.
A culpa. A culpa.
A imensa e majestade culpa.
Quase mais uma pessoa do que eu.
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