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Mostrando postagens com o rótulo diagnóstico

O “normal” e o patológico através do conto o Alienista (Assis, 1881) e da normatividade de Canguilhem

A classificação em normal ou patológico parece cristalizada nos imaginários; entretanto, isso se dá por influência continuada dos critérios médicos modernos a que somos expostos. Como todas as tipologias artificiais, esta também serve à História e à intenção dos homens e mulheres. Quando se reflete a fundo sobre como se pode conferir ao pensamento-comportamento de determinada pessoa os status de normal ou doentio, vários são os critérios de normalidade existentes; contudo, três se destacam: o subjetivo, o estatístico e o qualitativo.  a) critério subjetivo: associa a doença ao sofrimento , logo, está doente quem se sente doente. b) critério estatístico ou quantitativo: toma o normal como sinônimo de comum , frequente, ou mais próximo à média;  c) critério qualitativo: define que o normal é aquilo adequado a determinado padrão funcional considerado ótimo ou ideal.  Contudo, falhos como toda tentativa de sistematizar ou homogeneizar àquilo que é humano, tais critérios são...

O DSM e o problema dos nomes sem sujeitos

" Diagnóstico desligado de uma reflexão semiológica é apenas descrição sem narrativa. Diagnóstico sem intervenção é apenas classificação sem ordenamento. Diagnóstico desprovido de etiologia é apenas redescrição sem finalidade. A razão diagnóstica depende, portanto, do funcionamento articulado dessas categorias como pressuposições dos atos clínicos, o chamado ato diagnóstico - o que caracterizaria uma ultrapassagem do campo diagnóstico".  Dunker, 2011 Mais fortemente a partir de sua terceira edição (1980), o DSM  (Diagnostic and Statistic Manual)  pretende um caráter universal sustentado no ateoricismo, no descritivismo e nas estatísticas. No entanto, esse ateoricismo lhe confere uma utilidade operacional, em que classificações são instituídas apenas com base no observável e empiricamente acessível dos transtornos psíquicos, ignorando o olhar e o contato clínicos, bem como a narrativa pessoal do sujeito e a dimensão integrada da possível patologia.  Ao ser convertido ...

A psicopatia e a "medicalização do mal"

O conceito de psicopatia, mesmo atualizado sob a égide supostamente neutra e objetiva do Transtorno de Personalidade Antissocial, ainda se ancora nas justificativas históricas de desvio de caráter e anomalia moral. Henriques (2009, 2014) aborda a psicopatia como a própria " medicalização do mal operacionalizada pela psiquiatria"  e questiona: como proceder nesse caso, na qual os seus signos praticamente se reduzem à maldade e à crueldade e para a qual não há tratamento médico eficaz? A partir de uma perspectiva fenomenológica da psicopatologia,  a psicopatia refletiria uma alteração primária da “consciência moral” (Gewissen é o termo em alemão), na ausência de qualquer “alteração da consciência da realidade” (lucidez / vigilância) ou da “consciência do Eu” (autoorientação) . Ou seja, os considerados "psicopatas" teriam plena consciência de suas transgressões, mas também um completo desprezo por regras e normas morais. Quanto a isso, pontuo: A natureza desse desprezo...

Transtorno mental: natureza biológica ou construto social?

1. COMO CONSTRUTOS SOCIAIS: A ANTIPSIQUIATRIA E A FABRICAÇÃO DA LOUCURA  Essa perspectiva destaca a  instrumentalização  da condição da loucura como lugar de exclusão social, desde a criação dos primeiros manicômios no século XVII como depósitos de pessoas indesejáveis às vias públicas. A passagem do século XIX ao XX traz consigo novas tecnologias de pesquisa e tratamento e, consequentemente, novas concepções sobre a doença mental. O horror antiético da Segunda Guerra Mundial é o marco para questionamentos sobre o humano, e seus feridos e mortos possibilitam investigações sobre diversas enfermidades, notadamente as neurológicas. Ao mesmo tempo, a ascensão da ideologia neoliberal capitalista converge para a construção da autonomia e da individualidade como respostas às estruturas de competitividade e propriedade privada. A Declaração Universal dos Direitos Humanos em 1948 surge com o objetivo de universalizar a condição de dignidade da vida humana incondicionalmente. Nesse...

Transtorno dissociativo de identidade (“múltiplas personalidades”)

O termo “ dissociação ” é plurissignificativo (cunhado por Pierre Janet em 1880 para descrever o Distúrbio de Personalidades Múltiplas) e, no contexto psiquiátrico/psicológico, é entendido através de três naturezas distintas: a) exagero inapropriado do termo abrangendo processos executivos não-conscientes (em geral cotidianos e automatizados); b) “como coexistência de sistemas mentais separados que deveriam ser integrados na consciência, memória, ou identidade do indivíduo ”, indicando distúrbios dissociativos descritos pelas primeiras vezes no começo do século XX, por Janet, Freud, Breuer; c) experiências hipnóticas e certos distúrbios neurológicos (de consequências fisiológicas/comportamentais).  A característica central dos transtornos dissociativos é o comprometimento e fragmentação das funções de consciência, memória, identidade ou percepção. Podem ser súbitos ou graduais, transitórios ou crônicos. Há quatro subtipos principais, segundo o DSM-IV: amnésia dissociativa, fuga dis...