"Diagnóstico desligado de uma reflexão semiológica é apenas descrição sem narrativa. Diagnóstico sem intervenção é apenas classificação sem ordenamento. Diagnóstico desprovido de etiologia é apenas redescrição sem finalidade. A razão diagnóstica depende, portanto, do funcionamento articulado dessas categorias como pressuposições dos atos clínicos, o chamado ato diagnóstico - o que caracterizaria uma ultrapassagem do campo diagnóstico". Dunker, 2011
Mais fortemente a partir de sua terceira edição (1980), o DSM (Diagnostic and Statistic Manual) pretende um caráter universal sustentado no ateoricismo, no descritivismo e nas estatísticas. No entanto, esse ateoricismo lhe confere uma utilidade operacional, em que classificações são instituídas apenas com base no observável e empiricamente acessível dos transtornos psíquicos, ignorando o olhar e o contato clínicos, bem como a narrativa pessoal do sujeito e a dimensão integrada da possível patologia.
Ao ser convertido em alicerce da prática nosológica, o DSM mecaniza o diagnóstico e o divorcia da estrutura de tratamento a que deveria estar a serviço; assim, não apenas se assiste, como se reproduz, o acúmulo exponencial de nomes sem sujeitos.
O manual afasta terminantemente a psicopatologia das doenças orgânicas, inclusive substituindo o termo "doença" (mental) por "transtorno", "que nos remete a ideia de algo que está em desacordo com uma ordem operacionalmente estabelecida". Que ordem seria essa? Roudinesco (2000) chama atenção para a obsessão social pela padronização de comportamentos e a busca pela convenção da normalidade. Assim, o DSM, ao incorporar valores e práticas sociais dominantes, conduz à classificação massiva e operante dos "desviantes sociais" como doentes ou transtornados.
Assumindo caráter de legitimador, o diagnóstico torna o indivíduo um caso. É comum que esse paciente seja intoxicado com o vocabulário de nomes impronunciáveis e completamente apartados dele mesmo. Os critérios costumam ser arbitrários a um ponto em que um mesmo sujeito recebe vários diagnósticos, conflitivos e discordantes entre si.
A razão diagnóstica é histórica, e as expectativas sociais, bem como o sofrimento, variam a cada época e, dessa maneira, sintomas são descobertos, intensificados ou inventados. O desenvolvimento de uma medicação envolve custos exorbitantes, e a indústria farmacêutica pressiona a racionalidade diagnóstica baseada nos resultados que lhes são favoráveis.
A multiplicação de categorias, bem como a instrumentalização do consumo de medicamentos, atendem a políticas públicas de caráter regulatório, cujos mecanismos de proteção à “saúde das populações” na verdade pretendem perpetuar a já instaurada norma do sofrimento sintomático.
Em uma sociedade pervertida pelo império do capital, cujos sujeitos são convertidos em mão de obra e consumidores, o diagnóstico se estabelece como rótulo contenedor de valores.
O equívoco ocorre quando o potencial classificatório se autonomiza e se separa de sua estrutura maior, já que ele deve integrar três objetivos: o de ser a) uma semiótica capaz de delimitar o reconhecimento dos signos do patológico, b) uma prática de tratamento envolvendo procedimentos e ações direcionadas a cada caso particular (dimensão pragmática), e c) uma teoria das causas (dimensão etiológica).
São os autores adeptos da psicanálise que estruturam a maior parte das críticas ao DSM e seus equivalentes, argumentando que a teoria psicanalítica é uma sólida oponente à padronização pretendida, pois nela o diagnóstico desponta como uma função do discurso particular, sendo elemento de um conjunto e permitindo a expressão, a partir do cotidiano, de uma psicopatologia sui generis.
A postura de ser “ateórico” no campo da clínica é uma tentativa de assepsia política; criticar o DSM não significa exigir sua eliminação, mas sim propor reformulações linguajeiras e políticas que orientem uma prática clínica focada no paciente. O DSM deve se munir de outros vocabulários para descrições plurais e fidedignas dos mal-estares subjetivos atuais, a fim de se aproximar e contemplar a pluralidade do sofrimento psíquico humano.
Fonte:
Psicopatologia em debate: controvérsias sobre os DSMs / organizadores: Fuad Kyrillos Neto, Roberto Calazans. – Barbacena: EdUEMG, 2012. 203 p.: il.
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