Sujeitos às inseguranças ontológicas anteriormente mencionadas, a questão agora deve ser entender de que forma é possível o relacionamento dessa pessoa consigo mesma e com as demais. Tal “split”, condição existencial da psicose, ocorre quando o indivíduo começa a identificar-se demasiado exclusivamente com a parte que ele sente desencarnada. Mas o que viria a ser esse “desencarne”?
O self encarnado e desencarnado
Tratam-se de dois quadros existenciais básicos; pessoas encarnadas sentem que o próprio corpo está vivo, é real e substancial (sentindo a si mesmo da mesma forma); no caso das pessoas desencarnadas, em momentos de tensão, as mesmas se dissociam parcialmente do próprio corpo - e mesmo agressões a esse corpo podem não causar mágoa ao indivíduo, invocando menos medo que em uma pessoa comum, porque aparentemente nada se tem a perder que essencialmente pertença a ela.
A encarnação total não é garantia de sanidade; o corpo-self não é uma fortaleza inviolável contra as incertezas ontológicas. Entretanto, o indivíduo genuinamente fundamentado em seu corpo, apesar de não ser “unido” e “inteiro” em todos os sentidos, possui um ponto de partida integral - ponto esse que é pré-condição para a hierarquia de possibilidades que se sucedem em sua vida.
O self desencarnado
É o self mais ou menos divorciado do corpo: tal corpo é sentido mais como um objeto entre outros objetos no mundo, do que como cerne do indivíduo.
Tal sensação de falso-self impede a participação direta em qualquer aspecto da vida e do mundo através das percepções corpóreas, assim como os sentimentos e os movimentos. Suas funções vêm a ser observação, controle e crítica a tudo aquilo que o corpo sente e faz. O self desencarnado torna-se hiper-consciente.
A partir do estudo de alguns casos fronteiriços (tidos para Laing como esquizóides, embora já na então década de 1960 se reconhecesse o termo “borderline”, com este sendo um subtipo esquizofrênico até por volta da década de 1980), discorre-se sobre a atuação entre o self e a “personalidade”, em que o split causa a dicotomia da personalidade como um falso-self.
A personalidade é, então, como uma máscara, uma aparência ou uma personificação usada por tais indivíduos, um amálgama de diversas partes do self, em que nenhuma dessas partes foi plenamente desenvolvida; são diversos fragmentos do que poderia compreender uma personalidade, e seu comportamento observável pode compreender personificações bastante deliberadas ao lado de ações compulsivas de todos os tipos.
As ações do indivíduo não são consideradas expressões do seu self, já que tal personalidade dissociada considera todas as ações como fraudulentas e fúteis. A organização do falso-self deriva de falhas na percepção reflexiva.
O auto-relacionamento do indivíduo torna-se pseudo-interpessoal, como se se tratasse de outra pessoa, em que inclusive ocorre a despersonalização desse outro; o indivíduo cria, em seu íntimo, um microcosmos, por meio de tentativas de relacionamentos com pessoas no seu próprio interior, sem recorrer ao mundo exterior das pessoas e objetos.
O esquizoide tenta ser onipotente, no sentido de ser encerrado em seu próprio ser. As vantagens ilusórias são a segurança e a liberdade em relação aos outros.
Este self fechado e isolado é, assim, incapaz de enriquecer-se com experiências exteriores, de modo que todo o mundo interior torna-se cada vez mais empobrecido, até que o indivíduo passa a sentir-se um simples vácuo.
O estado esquizoide deve ser compreendido como uma tentativa de preservar um ser precariamente estruturado desde seus elementos básicos na primeira infância.
5. O self interior na condição de esquizoide
Estados temporários de dissociação do self e do corpo ocorrem em pessoas normais: trata-se de uma reação às experiências ameaçadoras, da qual não existe escapatória física, sendo o único recurso um retraimento psíquico dentro de si mesmo ou fora do corpo.
Entretanto, no caso dos esquizóides, a cisão não é uma reação temporária e reversível a uma situação específica, e sim uma orientação básica de vida:
“A falta de realidade, sentido e propósito que permeia as suas percepções, pensamentos, sentimentos e ações e seu entorpecimento geral não são simples resultado de defesa secundárias e sim consequências diretas da estrutura dinâmica básica do indivíduo.”.
A pessoa tende a tornar-se um observador mental, que contempla, desligado e impassível, o que seu corpo faz e o que fazem a seu corpo; enquanto o paranoico tem perseguidores específicos, o esquizóide de falso-self sente-se perseguido pela própria realidade.
Tal self procura, então, tornando-se imaterial, transcender o mundo e colocar-se em segurança, embora dessa forma se extinga de toda experiência e atividade, tornando-se um vácuo. Este desligamento significa que a pessoa nunca se revela por suas próprias expressões e ações, e é incapaz de sentir qualquer coisa de maneira espontânea ou imediata.
O relacionamento criativo com o outro, no qual existe mútuo enriquecimento do self e do outro, é substituído por uma interação de relacionamento estéril; o self pode até mesmo relacionar-se de modo imediato - mas com um objeto de sua imaginação ou memória, e não com uma pessoa real. Além disso, é comum que ocorra
“...um redemoinho de emoções conflitantes, que vão de um desesperado anseio pelo que os outros possuem e a ele falta, até a inveja frenética e ódio de tudo que pertence aos outros e não a ele, ou desejo de destruir tudo que há de bom, ingênuo e rico no mundo”.
O temor, o ódio e a culpa são constantes, ainda que não unificados ou não contraditórios; o indivíduo esquizóide acredita sobretudo na própria destrutividade, principalmente em relação aos outros.
6. O sistema de falso-self
O falso-self pode ser concebido como um modo de não ser a si mesmo: a pessoa ocupa-se com fantasias e observações e seus atos não são auto-expressões.
A dissociação corpórea e a consequente hiper-consciência buscam torná-lo puro sujeito, sem qualquer existência objetiva; entretanto, se a pessoa não for bidimensional - com identidade bidimensional estabelecida tanto por uma conjunção de identidade para os outros quanto de identidade para si mesmo -, não pode ser real.
O falso-self do esquizóide costuma, ainda, dobrar-se compulsivamente à vontade dos outros; assim, um dos pontos chaves na compreensão desse falso-self é a passividade compulsória a que parece se submeter propositalmente a pessoa, agindo no mundo apenas através de respostas aos estímulos alheios; trata-se de uma aquiescência às intenções ou expectativas do outro:
“Em geral, isso resulta em mostrar-se excessivamente ‘bom’, jamais fazer o que quer que seja se não o que foi mandado, jamais causar ‘problemas’ (...). Mostrar-se ‘bom’, porém, não é resultado de qualquer desejo positivo da parte do indivíduo no sentido de fazer as coisas que os outros dizem que são boas; é antes uma conformidade negativa com o padrão alheio e não próprio, provocada pelo temor do que poderá acontecer se a pessoa fosse ela própria na realidade”.
Dessa forma, surge uma fachada cada vez mais estereotipada e caricaturizada, construída inteira de impersonações fragmentadas; acumulam-se inúmeras identificações transitórias em pequena escala, e o comportamento se revela como uma colcha de retalhos das peculiaridades dos outros. Assim, o esquizofrênico parece despedaçar sua epiderme behavioral.
Embora as presenças do temor e do ódio sejam mais que comuns, a ansiedade a qual se está sujeito exclui a possibilidade de uma direta revelação do seu ódio. Dessa maneira, o que se chama psicose pode ser simplesmente o súbito desvelar de tais sentimentos. Conclui-se, então, que nas crises, é muito mais importante reconhecer o sentido no qual tais delusões são verdadeiras, em lugar de considerá-las absurdas.
Tal passividade ou aquiescência compulsória alcança sua forma mais extrema na obediência automática, ecoplexia (repetição involuntária ou a imitação dos movimentos de outras pessoas), ecolalia (repetição de palavras ou frases), e a flexibilitas cerea (estado em que os membros se mantêm em qualquer posição que sejam colocados) do catatônico; o processo começa por conformidade e anuência servis e termina através da expressão de seu ódio.
7. Autoconsciência
Adota-se a noção sensível de constrangimento como consciência de si mesmo: um retraimento na percepção de si mesmo e na percepção de si mesmo como objeto da observação de outra pessoa. É a sensação agravada de ser sempre transparente, e tal preocupação com ser visto une-se à ideia de um self mental penetrável e vulnerável.
“A necessidade de ser visto não é, naturalmente, mera questão visual. Estende-se à necessidade geral de ter a própria presença endossada ou confirmada por outros, a necessidade de que sua existência total seja reconhecida”.
Tal pavor gerado pela excessiva autoconsciência gemina numa culpa indissolúvel em resposta ao mencionado constrangimento.
A pessoa autoconsciente julga ser objeto do interesse de outras mais do que na verdade acontece, embora tal comportamento não se traduza necessária e exclusivamente em narcisismo, já que é construído sobre os pilares do auto-ódio, da hostilidade e do auto-escrutínio; o olhar que a pessoa espera que os outros lhe dirijam é sempre aquele de crítica desfavorável.
Ocorre, então, um duplo papel da autoconsciência da pessoa ontologicamente insegura: a) embora haja a necessidade de estar convicto da própria vida e da realidade das coisas, sente-se eternamente um mero objeto no mundo de outra pessoa, com intensa descontinuidade do self temporal; b) a sensação de estar potencialmente exposto ao perigo pelo simples fato de ser visível aos outros acarreta uma defesa óbvia de fazer-se invisível. “A neurose é o modo de evitar não-ser evitando ser”. O problema é que o indivíduo descobre que não se trata de uma performance, e o fingimento do não-ser é uma verdade, despojando-o de seu senso de autonomia, realidade, vida e identidade.
“A pessoa é impelida, compulsivamente, a procurar companhia, mas nunca permite-se ser ela própria na presença de alguém. Evita a ansiedade social não estando jamais na realidade com os outros. Só pode ser ele próprio em segurança quando isolado, embora acompanhado de uma sensação de vazio e realidade. (...) Aquilo por que mais anseia é a possibilidade de um momento de reconhecimento, mas sempre que isto ocorre por acaso, quando se revela por acidente, fica dominado por confusão e pânico generalizados”.
A partir disso, sugere-se que é um componente necessário ao desenvolvimento do self a experiência conjunta de desaparecimento e regresso dos objetos, notadamente da mãe. A mesma não é simplesmente uma coisa que a criança vê, mas uma pessoa que vê a criança. Nessa idade a criança ainda se sente como extensão corpórea da mãe, sendo possível que a ausência dessa mãe acarrete a sensação de desaparecimento e de não-existência de si mesmo, e tal é o mecanismo da hoje conhecida ansiedade de separação. É também possível, ainda, que esse self “desaparecido” seja imbuído de uma essência negativa, ameaçadora ou má, consequentemente tornando-se o “ele” perseguidor numa psicose paranoide.
Comentários
Postar um comentário