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Sobre a determinação biológica nos transtornos mentais

Trechos retirados do artigo “A  determinação biológica dos transtornos mentais: uma discussão a partir de teses neurocientíficas recentes”, de Luna Rodrigues Freitas-Silva e Francisco Ortega, 2016. “Uma vez que as poucas associações encontradas nesses estudos não foram replicas em trabalhos posteriores, os seus resultados começaram a ser ressignificados pelos pesquisadores da área. A principal hipótese elaborada para justificar a dificuldade de replicação dos resultados positivos diz respeito à participação limitada do respectivo gene na determinação do transtorno, ou seja, o marcador biológico contribui para a formação da doença, mas não é capaz de responder exclusivamente pela sua etiologia, tendo um efeito final restrito na determinação da patologia. Trata-se de um modo de compreender a herança genética que se distancia da hipótese ‘gene para o transtorno X’ e de mecanismos genéticos simples, apontando para a complexidade genética e para a e...

Diagnóstico diferencial entre TAB e TPB (parte 1)

Trechos retirados da dissertação de  ANGELA KALINE MAZER: “Diagnóstico diferencial entre transtorno afetivo bipolar e transtorno de personalidade borderline fundamentado na história de estresse precoce e em avaliação psiconeuroendócrina”, 2013. “Quadro 2. Critérios diagnósticos para o TAB segundo a CID10 (1997): Transtorno caracterizado por dois ou mais episódios nos quais o humor e o nível de atividade do sujeito estão profundamente perturbados, sendo que este distúrbio consiste em algumas ocasiões de uma elevação do humor e aumento da energia e da atividade (hipomania ou mania) e em outras, de um rebaixamento do humor e de redução da energia e da atividade (depressão). Pacientes que sofrem somente de episódios repetidos de hipomania ou mania são classificados como bipolares. Quadro 3. Definições dos episódios de alteração do humor que caracterizam o TAB, de acordo com o DSM-IV-TR (2002). Episódio Maníaco Um período distinto de humor anormal e per...

questionar o TPB é questionar CARÊNCIAS SOCIAIS

O fato de que o TPB é uma classificação relativamente nova NÃO JUSTIFICA as assertivas redutoras e discriminatórias que preenchem não apenas a literatura de senso comum, mas também a científica. O transtorno te fragmenta a noção de si e consequentemente a noção do próprio transtorno - ainda se busca excessivamente definir limites entre o “eu verdadeiro” e o transtorno de personalidade, como se isso fosse relevante; se o indivíduo vive eternamente a esmo quanto a si mesmo e tem na ciência  única possibilidade de encontro e tradução das agonias que até então não têm nome nem origem, o que resta a esse indivíduo se essa mesma ciência o abandona? Literatura discriminatória cria profissionais mal instruídos, que por sua vez criam mais literatura discriminatória. E aquele portador já fragilizado cujos esclarecimento e senso crítico se encontram no mesmo estado se defronta com taxações fundamentadas em a) na baixa credibilidade que esses pesquisadores conferem às q...

o estigma na literatura sobre borderline

Quando comecei a pesquisar sobre, aos 17, eu fiquei apavorada. Principalmente depois de perguntar à minha então psiquiatra se eu poderia ter o transtorno, porque ela disse algo como “você não tem. pacientes borderline são praticamente impossíveis de tratar. eles não levam à frente terapia; eu tive uma única paciente assim e ela desistiu na segunda consulta. também não há medicação própria”.  numa primeira busca o estigma e as vinculações taxativas são tudo que você encontra, o que me leva a pensar que talvez essa literatura seja tão numerosa quanto a que se propõe a analisar profissionalmente os aspectos e razões reais do comportamento tipicamente borderline, e, infelizmente, mais acessível . e como todo preconceito, há a retroalimentação - nasce da discriminação e a propaga. essas “pesquisas” deixam nas entrelinhas que os portadores de TPB são pessoas inerentemente ruins . usando lógica básica, como você pode ser responsável pelos seus próprios sintomas, e como possu...

A Depressão e o problema semântico

Uma vez, numa fase aguda da depressão, lembro que eu conversava com um amigo também deprimido, e ele me disse algo que nunca esqueci - e que sempre menciono quando o assunto é esse. O maior problema pra compreensão da depressão é que ela não permite palavras . Eu sei que costumamos ter momentos de profunda emoção em que as palavras nos faltam, mas é muito além disso. Na depressão, o problema semântico se vale de duas faces: a primeira é que de fato não existem substantivos e verbos suficientemente efetivos pra descrever os estados de ânimo devastados ; a segunda é que, tendo em mãos unicamente o vocabulário “comum”, as pessoas não sentem o impacto, e as descrições não bastam. Todo mundo já se sentiu deprimido.  Todo mundo experiencia com frequência os mesmos sentimentos que assolam um depressivo. A depressão não é sobre uma coisa nova, e sim sobre coisas que todos nós conhecemos e partilhamos - extrapoladas ao nível de sintomas, incapacitando e paralisando. Quan...

Sobre o splitting (cisão/pensamento dicotômico/clivagem) no borderline

A maioria dos sintomas do TPB não são “novidade” ou sentimentos que se restringem aos portadores. São pensamentos e emoções comuns, que acometem a todos, mas que em razão do transtorno, são extrapolados a nível patológico, caracterizando padrões que prejudicam a vida. Julgamentos que oscilam e alternância de concepções são características humanas: nada mais ordinário que mudar de opinião. Acontece que para os portadores de TPB, por ser um SINTOMA e não estar sujeito à vontade e opção, isso acontece com muito mais frequência e intensidade. É a esse padrão de pensamento dicotômico e maniqueísta, em geral antagônico, que chamamos de “ splitting ”. Em tradução livre quer dizer “divisão, ruptura, rachadura”. Nós temos a capacidade de pensar em meio termos, possibilidades e transições prejudicada. E isso, friso como sempre, não depende de uma simples escolha; ser incapaz (ao menos momentaneamente, já que a terapia elabora estratégias cognitivas e comportamentais) de avaliar ...