Trechos retirados do artigo “A determinação biológica dos transtornos mentais: uma discussão a partir de teses neurocientíficas recentes”, de
Luna Rodrigues Freitas-Silva e Francisco Ortega, 2016.
“Uma vez que as poucas associações encontradas nesses estudos não foram replicas em trabalhos posteriores, os seus resultados começaram a ser ressignificados pelos pesquisadores da área. A principal hipótese elaborada para justificar a dificuldade de replicação dos resultados positivos diz respeito à participação limitada do respectivo gene na determinação do transtorno, ou seja, o marcador biológico contribui para a formação da doença, mas não é capaz de responder exclusivamente pela sua etiologia, tendo um efeito final restrito na determinação da patologia. Trata-se de um modo de compreender a herança genética que se distancia da hipótese ‘gene para o transtorno X’ e de mecanismos genéticos simples, apontando para a complexidade genética e para a etiologia multifatorial dos transtornos mentais. (...)
Os mecanismos epigenéticos são apresentados como a via de interação entre o genoma e o ambiente, explicando em termos biológicos o modo como se conjugam as influências oriundas do meio externo e a carga genética dos indivíduos. Assim, ‘os mecanismos epigenéticos oferecem um link plausível entre o ambiente e alterações na expressão genética que podem conduzir aos fenótipos de doença’. Essa conjugação teria como principal consequência a produção de variações no risco de cada indivíduo para o desenvolvimento de transtornos mentais, podendo conduzir ao aumento da vulnerabilidade à doença ou, inversamente, a uma maior resiliência, que desfavorece o surgimento da patologia. (...)
No caso dos mecanismos epigenéticos, a alteração seria resultado não de processos internos ao próprio organismo, mas da ação de agentes externos, oriundos do ambiente, sobre o funcionamento celular. As influências externas agiriam permitindo ou impedindo a expressão de um determinado gene, além de regularem a intensidade com que ocorre a expressão. Desse modo, o ambiente atuaria como um filtro, que permite a ativação e o funcionamento de um ou de determinados conjuntos de genes ou, de forma inversa, age de forma que um gene ou conjunto de genes fique inativo, alterando os efeitos moleculares que seriam produzidos a partir desta parcela do DNA e, consequentemente, a ex- pressão de determinado fragmento da herança genética. (...)
Os fatores ambientais capazes de gerar esse tipo de efeito e que vêm sendo investigados nas pesquisas do campo variam desde fatores nutricionais e químicos, como a dieta materna durante a gravidez e a contaminação por vírus e substâncias tóxicas, até fatores ambientais mais relacionais, como o nível de cuidados maternos e a exposição ao estresse em períodos precoces da vidas Como observam Bale et al., muitos desses fatores vêm sendo estudados como causa, elemento precipitador ou colaborador na formação dos transtornos mentais há mais de um século. No entanto, a intenção das pesquisas atuais é compreender o impacto (...).
A interação ocorre de forma que não garante o surgimento da doença, mas resulta em variações probabilísticas e individualizadas para a formação patológica. Dessa forma, o modelo epigenético oferece uma explicação geral para a construção gradativa da vulnerabilidade, que tem início com a exposição a fatores ambientais prejudiciais em períodos precoces do desenvolvimento, passa pela modificação da expressão genética em função desta exposição, e chega a alterações na fisiologia celular e no funcionamento do organismo que conferem risco aumentado para a formação da doença. (...)
No campo neurocientífico, a noção de epigenética está atrelada às noções de neurodesenvolvimento e plasticicidade cerebral.
Nesse contexto, os transtornos mentais – definidos como transtornos do neurodesenvolvimento – são entendidos como o estado final de uma série de processos anormais de desenvolvimento do cérebro, que tem início anos antes do estabelecimento da patologia propriamente dita.
O entendimento dos transtornos mentais como transtornos do neurodesenvolvimento vem sendo valorizado como forma de explicar o caráter crônico e progressivo das patologias mentais. Uma vez que os transtornos psiquiátricos, em sua maioria, se desenvolvem lentamente e, uma vez instalados, frequentemente têm um curso duradouro e incapacitante, caracterizando-se como doenças crônicas, o conceito de desencolvimento seria especialmente útil para compreendê-los.
A vulnerabilidade aos transtornos psiquiátricos surge a partir da exposição a fatores ambientais durante períodos críticos de desenvolvimento do cérebro. Os desafios seriam compreender os efeitos biológicos que as experiências adversas mais precoces causam no organismo. (...)
‘As mudanças epigenéticas oferecem um mecanismo plausível por meio do qual as experiências precoces poderiam ser integradas ao genoma para programar as respostas hormonais e comportamentais do adulto’. (...)
Diversos fatores ambientais relevantes no desenvolvimento dos transtornos mentais vêm sendo investigados, compreendendo, entre outros, a experiência de estresse e a dieta materna durante a gravidez e variações nos cuidados maternos nas primeiras semanas de vida. Tais fatores exerceriam impacto especialmente nos chamados ‘períodos críticos do desenvolvimento’, no qual o sistema nervoso central tem maior flexibilidade para mudança, tanto anatômica como funcional. (...)
Diversas outras pesquisas vêm sendo elaboradas com o intuito de investigar as situações de trauma, abuso e abandono infantil como fatores de risco para o desenvolvimento de transtornos mentais. Mais uma vez, a suposição é de que tais eventos exerçam efeitos biológicos no nível molecular capazes de alterar o desenvolvimento do cérebro, influenciar as respostas comportamentais às situações estressoras experimentadas ao longo da vida e, assim, aumentar a probabilidade de formação de transtornos mentais. (...)”
Quando a hipótese de um “gene para o transtorno X” foi descartada, a neurociência se voltou para a causa multifatorial dos transtornos mentais, chamados agora de transtornos do neurodesenvolvimento - conferindo mais especificidade à dimensão biológica da doença.
Apesar de a plasticidade cerebral atuar durante toda a vida do indivíduo, há períodos críticos em que essa função é mais flexível - como os períodos embrionário e da primeira infância. Investigações sugerem que experiências de estresse e trauma durante essa época seriam “ativadoras” da expressão de genes potencialmente patológicos, gerando uma maior vulnerabilidade a manifestação de transtornos mentais. A hipótese é que a gênese dos transtornos se ancore na interação entre genoma e ambiente, com o segundo promovendo alterações celulares no primeiro, dependendo da temporalidade e da intensidade das exposições estressoras.
Os autores reiteram que não significa que o ambiente seja a causa responsável para o surgimento da doença mental, tampouco a herança genética; o que existe é uma afetação mútua, em que o trauma pode ou não desencadear a patologia de acordo com sua natureza e com a expressão do gene.
O estudo sobre as determinações biológicas de doenças mentais é imprescindível para a desmitificação das mesmas e sua interpretação como patologias que se originam e agem também no físico.
Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/csp/v32n8/1678-4464-csp-32-08-e00168115.pdf
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