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o cérebro não cria o homem: o "sujeito cerebral" e o reducionismo da neurocultura

o zeitgeist do século XVII trouxe consigo o reducionismo mecanicista , no qual todo humano seria explicável por mecanismos físicos. hoje, quatro séculos depois, essa posição parece não ter sido superada - e apenas atualizada através da genética e das neurociências. friso que o problema recai não no conhecimento-objeto, mas sim na tendência instrumentalizadora que reflete o autoritarismo e o sensacionalismo científicos; isso porque o termo "neuro " foi convertido atualmente em um significante mestre , ou seja, um significante que explica quase tudo, uma etiqueta de garantia de que há nisso um saber seguro. nossa fantasia de época é o sistema cibernético - e a insistência de assemelhar o cérebro a um computador, e o humano a um andróide; assim persiste a hipótese subjacente de que tudo o que somos tem sua localização : o sujeito é topográfico, isto é, insiste-se num mapping ou escaneamento que busca o humano nos neurônios e genes. então despontam milhares de teorias sobre ge...

psicopatia e julgamentos morais: evidências neurobiológicas

“psicopata” não é uma categoria descritiva, mas sim uma medida variável que se manifesta através de traços; a escala PCL-R (psychopathy checklist-revised)  de Hare lista: com relação a fatores interpessoais/afetivos : lábia/charme superficial; senso grandioso de autoestima; mentira patológica; ausência de remorso ou culpa; afeto superficial; crueldade/falta de empatia; falha em aceitar responsabilidade pelas próprias ações; comportamento sexual promíscuo; ludibriador/manipulador. com relação ao estilo de vida desviante ou antissocial : falta de objetivos realistas de longo prazo; impulsividade; irresponsabilidade; versatilidade criminal; necessidade de estimulação; estilo de vida parasita; controle deficiente do comportamento; problemas comportamentais precoces; muitas relações conjugais de curta duração; revogação da liberação condicional; delinquência juvenil. esses traços podem estar presentes desde a infância, já que a psicopatia se trata de um desvio relacionado à hereditaried...

a personalidade como-se: o borderline na clínica psicanalítica de Deutsch e Winnicott

Abordadas por Deutsch (1942) em relação à “ personalidade como-se”, as noções de falso self ganham notoriedade com Winnicott (1949/1960), sendo centrais para O Eu Dividido de Laing (1960) e utilizadas como chave para compreensão dos tipos esquizofrênicos na clínica psicanalítica. Antes de tudo, uma consideração íntima: costumo interpretar as argumentações psicanalíticas tradicionais com um certo resguardo de licença poética; isso porque se tratam de processos esmiuçados de maneira profundamente complexa, mas que não se perdem da própria lógica; apesar do caráter de pseudociência que reitero , o discorrer psicanalítico  assume um modo de prosa poética, irmanado à abordagem fenomenológica que foca no sujeito doente como existência válida. A clínica confere dignidade àquele que sofre, centralizando a totalidade da pessoa observada numa outra linguagem. A evolução sócio-histórica do transtorno de personalidade borderline lhe conferiu o título de “personalidade como-se” (tamb...

borderline: comorbidades e etiologia

os transtornos de personalidade, apesar de seus sintomas incluídos nas categorizações de transtornos mentais, exigem diferenciação dos mesmos por se tratarem de uma organização que se desenvolve em tenra idade e permanece mais ou menos estável ao longo da vida. o TP assemelha-se mais a um “modo de ser” que acarreta prejuízos em todas as dimensões existenciais do que propriamente a uma doença definida que se pode pontuar temporal e espacialmente. segundo o DSM-IV, os TPs são " um padrão de vida interna ou comportamento que se desvia acentuadamente das expectativas culturais do indivíduo, manifestado em duas (ou mais) das seguintes áreas: cognição (modo de perceber a interpretar a si mesmo, outras pessoas e eventos), afetividade (amplitude, intensidade, labilidade e adequação da resposta emocional), funcionamento interpessoal e controle dos impulsos " [APA, 1994]. Já a CID-10 os define como " perturbação grave da constituição caracterológica e das tendências comportame...

Bolsonaro e a psicologia do fanatismo

parece óbvio . bolsonaro é uma criatura limitada intelectual e emocionalmente, que ascendeu instrumentalizando ódios comuns, incapaz de uma oratória coerente e objetiva, munido de raciocínio superficial que só é capaz de oferecer medidas imediatistas e parciais. bolsonaro é claro quanto à intenção de sacrificar as seções populacionais que não considera dignas de vida decente, através de seu típico apelo à violência (sob desculpa de conservadorismo). e apesar do que parece tão óbvio e absurdo, ainda há quem com ele corrobore. por quê? pra discutir isso é preciso introduzir  com um esboço do panorama educacional brasileiro para em seguida refletir sobre modelos mentais, distorções cognitivas, realismo ingênuo/direto, política e identidade social e psicologia da persuasão (a exemplo hitleriano). EDUCAÇÃO  A educação brasileira, entre várias fases que incluíram a) a exclusão do proletariado e das mulheres do ensino formal, b) a expansão da escolaridade gratuita e obrigatóri...