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18/04, 19:25

Lembro vagamente. Chorava às birras contra tomar banho, e minha mãe me empurrava gentilmente sob o chuveiro, é rapidinho. Foi buscar a toalha, fiquei sozinha com os soluços por um instante. Então, julguei que me afogaria sob o chuveiro, um pânico vário. Coisa de criança.

Mas eu tenho 22 anos.

O choro não cessou quando atravessei o box ou enquanto ela me secava e vestia. Não era sobre o banho, nem sob o estandarte dele - quando pareceu haver um odor pútrido emanando de debaixo da pele, e não era possível que ninguém mais desse conta. Não era nem mesmo sobre o declínio de, após muito custo aprender as atividades essenciais, havê-las outra vez perdido. era uma lástima como um ponto no espaço, incognoscível. eu ouvi vulgar o tal inexplicável mas julguei que fosse apenas questão de entrar em contato com as palavras certas. achei improvável que algo não pudesse ser transposto. não até então.

porque o significado é o primeiro a se esvair. 

isso não é só uma louça suja,

ou um banho ligeiro

ou um cabelo embaraçado e úmido.

não é só um sutiã como lei, um espelho socado até os cacos ou uma discussão sobre o quanto eu estou irremediavelmente só.

apesar dos meus esforços. e do seu, que você alega, mas não chega até mim.

Encaro as coisas, as atividades e os verbos e não os reconheço. Não me encontro, não há relação guardada. Contato uma primeira vez e desgosto. Longínquos e perversos. Tento me convencer, vamos, você já fez isso um milhão de vezes, é só isso ou aquilo. E as mãos flácidas desabam nas laterais do corpo. Perdi meus meios.

Orientação pro desespero. Tenho de justificar. E caço sem sucesso, dispondo apenas de flechas envenenadas. Imobilizo e abato a palavra. De forma que orientada pelo desespero não há pra isso verbete de Aurélio. Se diz aquilo que se dispõe, a convenção estabelecida. Mas isso corrompe a instituição, o cânone, a lei dos homens. E eu faço hábito daquilo que é possível, e não daquilo que é verdade. Nada do que eu comunico nesse estado é fidedigno à minha especificidade, e às demais de estados semelhantes. Nós subordinados e escravos do inteligível não compartilhamos da comunicação, e as interlocuções padecem obstruídas de superficial e signos paliativos. 

Eu não tenho dito o que preciso e o que existe. Uma existência circunscrita, escravidão antiga. Nós discutimos. Há brechas nas palavras que atiro, a maioria de socorro. Não compartilhamos sentidos - minhas respostas são outras, estratificadas, viciadas. Como se pudesse transpor meu terror pelo tom. Mas não. Você não entende não por escolha própria e egoista que eu possa repreender, mas sim porque não é possível. É um exercício de desvendar. Isso que eu tento talvez seja o que significa, mas jamais o que quer dizer.

Que saudade de reconhecer o entorno, e me presentificar. Que saudade de ser reconhecida por você. 

Eu não pareço aquela por quem você se apaixonou. Eu sinto muito mais do que posso me desculpar.

Os humores mais que oscilam, fugidios e órfãos de bases. Os disparates desisti de elencar, dispensam legitimidade e valor. Explodo, espalho, estorvo. Esqueço.  Ex eu.

Ingênua, me achei curada; me senti bem durável. resistiria à rotina atribulada, aos possíveis rompimentos, à exaustão ao chegar, à injustiça do mercado, ao presidente, ao pesadelo, a você que me permitia desbotar, ao que quer que viesse. Não por acaso mais forte que a doença.

Mas eu não contava com uma pandemia. com o sumo medo. os corpos batizados anônimos em covas coletivas, como manequins pestilentos. e aqueles que chamam “ira de Deus”, “oportunidade de reforma íntima”. a falta do adeus os urubus à espreita as maçanetas higienizadas o perigo iminente de um afago. a distância sancionada e o isolamento que eu tanto esbravejei por anos pra não impor sobre mim mesma sendo agora compulsório. e a solidão pródiga que à casa torna, fantasiada de proteção. não é essa solidão. não é esse isolamento. não é sobre a doença que lota os leitos agora, e sim sobre aquela que esgota o livre-arbítrio até que se lote o alto dos prédios. e se exponha repentina contra as avenidas, em estética não convencional, como arte moderna. chocando.

coberta de crostas de alergia no ataque do corpo ao próprio corpo. tornei à prodigalidade dos cortes sem cuidado de discrição. e foi apenas assim que enfim me reconheci. 

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