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Impactos psicológicos da quarentena

Síntese do artigo The psychological impact of quarantine and how to reduce it: rapid review of the evidence”, de Samantha K Brooks e Gideon James Rubin (2020)

https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0140673620304608#fig1

De 3166 estudos revisados, citações de 24 deles foram incluídas no artigo - tais estudos foram realizados em dez países e incluíram pessoas com SARS (11 estudos), Ebola (cinco), pandemia de influenza H1N1 de 2009 e 2010 (três), síndrome respiratória do Oriente Médio (dois) e influenza eqüina (um). Um desses estudos relacionou-se ao H1N1 e ao SARS.

  • foram relatados que 29% das pessoas apresentaram sintomas de estresse pós-traumático, e 31% tiveram depressão após o período de isolamento;
  • 28% dos pais em quarentena relataram sintomas de algum distúrbio de saúde mental relacionado ao trauma;
  • os estudos relataram, durante e após a experiência de isolamento, sintomas envolvendo depressão, estresse, irritabilidade, insônia, raiva e exaustão emocional - sendo o humor baixo (73%) e a irritabilidade (57%) os mais prevalentes;
  • foram relatados efeitos a longo prazo da quarentena três anos após o surto de SARS em profissionais de saúde, envolvendo sintomas de abuso ou dependência de álcool. Além disso, esses profissionais apresentavam sintomas mais graves de estresse pós-traumático do que os membros do público em geral.
  • um dos estudos identificou várias características associadas a mais impactos psicológicos negativos: idade mais jovem (16 a 24 anos), níveis mais baixos de qualificações educacionais formais, sexo feminino e ter um filho.
  • Ter um histórico de doença psiquiátrica estava associado a experimentar ansiedade e raiva mesmo 4-6 meses após a liberação da quarentena. 

ESTRESSORES DA QUARENTENA

  • Duração: três estudos mostraram que durações mais longas de quarentena (mais de 10 dias) estavam associadas especificamente a problemas de saúde mental. 
  • Medos de infecção: participantes de oito estudos relataram temores sobre sua própria saúde ou medo de infectar outras pessoas, principalmente da família, e estavam excessivamente preocupados com qualquer sintoma físico potencialmente relacionado à infecção.
  • Frustração e tédio: Demonstrou-se frequentemente que o confinamento, a perda da rotina habitual e o contato social e físico reduzido com outras pessoas eram os maiores preditores dos referidos sintomas.
  • Suprimentos inadequados:  o fornecimento de suprimentos básicos inadequados (comida, água, roupas ou acomodação), bem como a impossibilidade de obter cuidados médicos regulares durante a quarentena, foi fonte de ansiedade e continuou associado a tal sintoma 4 a 6 meses após a liberação. Quatro estudos descobriram que os suprimentos das autoridades de saúde pública eram insuficientes (atente-se que no Brasil nenhuma assistência social regular foi declarada).
  • Informações inadequadas: Após a epidemia da SARS de Toronto, os participantes relataram confusão e inconsistência entre os pronunciamentos das instituições de saúde pública, devido à falta de coordenação entre as várias jurisdições e níveis de governo envolvidos. Os sintomas foram principalmente em razão da falta de clareza sobre os diferentes níveis de risco, e isso foi testemunhado como dificuldade em cumprir os protocolos de quarentena - um preditor significativo de estresse pós-traumático (atente-se novamente: a veiculação de notícias no Brasil, apesar de excessiva, não tem sido eficiente quanto à objetividade; informações claras sobre as estatísticas dos grupos de risco, sobre como age o vírus, sobre qual a necessidade da quarentena e qual a previsão se não for respeitada, sobre quais os cuidados básicos, entre outros, não estão sendo divulgadas em acordo. Em 24/03 o pronunciamento de Bolsonaro na tevê aberta, menosprezando os impactos da doença e ordenando a suspensão do isolamento decerto será responsável por uma prospectiva genocida).

ESTRESSORES PÓS-QUARENTENA

  • Finanças: a perda financeira resultante da quarentena criou sérios problemas socioeconômicos e foi considerada um fator de risco para sintomas de distúrbios psicológicos mesmo em caso de recebimento de assistência estatal. Quanto menor a renda, mais alta a quantia de estresse pós-traumático e sintomas depressivos.  
  • Estigma: Profissionais de saúde relataram sofrer estigma, o que está relacionado à intensificação sintomática.

COMO MITIGAR AS CONSEQUÊNCIAS 

O efeito psicológico negativo não é surpreendente, e sim a evidência de que isso pode ser detectado meses ou anos depois, e sugere a necessidade de garantir que medidas eficazes de mitigação.

  • A história de doença mental foi examinada como fator de risco em um estudo; é provável que pessoas com problemas de saúde mental pré-existentes precisem de apoio extra durante a quarentena.
  • Restringir a duração da quarentena ao que é cientificamente razoável (duração conhecida dos períodos de incubação) minimizaria o efeito nas pessoas.
  • Garantir que as pessoas em quarentena tenham uma boa compreensão da doença em questão e os motivos para declaração de quarentena devem ser uma prioridade.
  • Os funcionários também precisam garantir que as famílias em quarentena tenham suprimentos suficientes para suas necessidades básicas e, o que é mais importante, eles devem ser fornecidos o mais rápido possível. 
  • fornecer às pessoas em quarentena telefones celulares e redes Wi-Fi para permitir que elas se comuniquem com seus entes queridos pode reduzir sentimentos de isolamento, estresse e pânico. linhas telefônicas ou serviços on-lines devem ser criados tanto para atendimento psicológico quanto para fornecer instruções sobre o que fazer no caso de desenvolver sintomas. Existem evidências que sugerem que grupos de apoio especificamente para pessoas que ficaram em quarentena em casa durante surtos de doenças podem ser úteis. 
  • Altruísmo é melhor que compulsão: sentir que outros se beneficiarão por atitudes altruístas pode facilitar situações estressantes e parece provável que isso também seja verdade para a quarentena doméstica: isso significa que optar pela quarentena é menos prejudicial que ser obrigado a aderir a ela.

Os estudos não sugerem que a quarentena não deva ser usada, e sim que o Estado deve tomar todas as medidas para garantir que essa experiência seja o mais tolerável possível, por meio de comunicação clara e direta, fornecimento de atividades significativas, e assistência econômica incluindo suprimentos básicos (não apenas comida e água como também suprimentos médicos). 

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