“Até que ponto a personalidade é influenciada por fatores biológicos, tais como a hereditariedade? Até que ponto a personalidade pode ser modificada pela aprendizagem? Em que medida a infância é um período crítico para o desenvolvimento da personalidade, e quanta mudança pode ocorrer na idade adulta?”
De acordo com Gordon Alport, a personalidade consiste em “uma organização dinâmica, dentro do indivíduo, daqueles sistemas psicofísicos que determinam seus ajustamentos únicos ao ambiente”. Como é dinâmica, a personalidade é naturalmente suscetível a mudanças e adaptações, embora seja igualmente uma organização determinante. É psicofísica - interação entre disposições hereditárias e influências ambientais - e “está por trás de atos específicos e dentro do indivíduo”.
Do ponto de vista estrutural, a maioria dos autores concorda que a personalidade consiste em temperamento (aspectos biológicos), caráter (formado socialmente) e inteligência (dinâmica entre ambos).
Ela diz respeito à matriz da história do desenvolvimento desde criança: o indivíduo desenvolve um padrão particular de “características que estão fortemente enraizadas, não podem ser facilmente erradicadas e penetram em cada faceta de seu funcionamento”. Tal padrão é descrito como o modo de cada pessoa perceber, sentir e pensar a realidade, e a partir disso comportar-se frente a ela.
Os transtornos de personalidades não são tecnicamente considerados como doenças, mas sim como condições estáveis de modos de ser, pois desenvolvem-se na infância e intensificam-se na adolescência, permanecendo ao longo da vida do indivíduo, modificando-se em intensidade ou não dependendo do tempo e de tratamentos. O conceito de TP surgiu da necessidade de classificar anormal e distintamente a personalidade atuante de criminosos, em geral de forma pejorativa e excludente, com diagnósticos como psicopata, sociopata, dissocial ou anti-social, insano moral etc. À despeito de tal intenção de preconceito, estudos modernos apontam que de fato grande parte dos perpetradores de crimes violentos e da população penitenciária apresenta transtornos de personalidade. A prevalência dos TP na população geral varia de 11% a 23% . “Estes indivíduos apresentam prejuízos a longo prazo em sua capacidade para trabalhar e amar e tendem ser menos educados, solteiros, toxicômanos, desempregados e apresentam dificuldades nos relacionamentos conjugais”. Além disso, os TP são fatores predisponentes para outros tipos de transtorno, como abuso de substâncias, suicídio, transtornos do humor, transtorno do controle dos impulsos, transtornos alimentares e ansiosos.
EVOLUÇÃO HISTÓRICA DO CONCEITO
As primeiras concepções de doença e saúde provinham da teoria dos quatro elementos; a tentativa primordial de estudo dos tipos de personalidade foi feita pelo médico Hipócrates de Cós (cerca de 460-377 a.C.), chamada de “teoria humoral” e baseada na ideia de que o corpo humano contém quatro humores essenciais que dependiam de mais ou menos presença de quatro substâncias essenciais – fleuma, bile amarela, bile negra e sangue. O excesso de fleuma levaria a uma forma de demência, a bile amarela causaria a raiva maníaca e a bile negra causaria a melancolia.
Durante o século XIX, Pinel descreve o quadro de manie sans délire em 1809, caracterizando-se pelo prejuízo das funções afetivas, particularmente instabilidade emocional e tendência dissocial, mas sem prejuízo da função intelectual e cognitiva.
Também no final do século XIX e início do século XX, há uma teoria de doença mental descrita por dois psiquiatras franceses, Benedict-Augustin Morel (1809-1873) e Valentin Magnan (1835-1916), a qual a hereditariedade como um importante fator no desenvolvimento das doenças mentais (embora ainda dependentes de estímulos externos).
Em 1835, Prichard apresentou a descrição da “insanidade moral”, generalizando a concepção de Pinel. Maudsley, em 1874, falou da “privação congênita de senso moral”. O termo psicopatia foi introduzido por Koch em 1891, sem considerar, no entanto, que se tratasse de um distúrbio mental.
Kurt Schneider publicou, em 1923, a monografia Personalidades Psicopáticas, argumentando que as personalidades “anormais” eram variações da mediania equilibrada de características internas.
Freud foi o primeiro teórico a considerar os aspectos desenvolvimentais da personalidade, principalmente o papel fundamental dos primeiros anos da infância como formadores da estrutura de caráter básica da pessoa, acreditando que o desenvolvimento posterior era praticamente só a elaboração dessa estrutura básica.
Para Jung, a personalidade total, ou a psique, consiste em vários sistemas diferenciados e interrelacionados. Os principais são o ego, o inconsciente pessoal e seus complexos, e o inconsciente coletivo e seus arquétipos, a anima e o animus, e a sombra - e enfim o self, centro de toda a personalidade.
Em uma das primeiras e mais importantes tentativas de encontrar correlação entre os transtornos de personalidade e alterações neurofisiológicas, Cloninger esboçou três dimensões de personalidade independentes e hereditárias, cada uma associada com a atividade de um neurotransmissor. Comportamento exploratório (busca de novidade) estava associado com baixa atividade dopaminérgica basal; comportamento de esquiva (evitar danos) com alta atividade serotoninérgica e comportamento de dependência por recompensa (dependente), com baixa atividade noradrenérgica basal.
O temperamento “é definido como tendências emocionais e de aprendizado herdadas, as quais são a base para a aquisição de traços de comportamento automáticos (com conteúdo emocional), observáveis precocemente e que são relativamente estáveis durante o período da vida do indivíduo.”
Temperamento e caráter ocorrem com base em dois tipos de memória e aprendizado: procedural e proposicional. O temperamento abrange a memória procedural (responsável pelo aprendizado associativo e pelo processamento perceptual pré-semântico de informação visuoespacial e de conteúdo afetivo; regulada pelo sistema córticoestriatolímbico). Já o caráter depende do aprendizado proposicional, o qual abrange as funções cognitivas maiores da abstração e simbolização.
As quatro formas teorizadas de temperamento são: esquiva (evitar danos), exploratórios (busca de novidades), dependência por recompensa (ou gratificação) e persistência. São considerados geneticamente determinantes e ocorrem em combinações, ao invés de isoladamente.
De forma simplória, os quatro tipos de temperamento ocorrem em diferentes intensidades em cada pessoa, trazendo vantagens e desvantagens dependendo de sua manifestação, influenciando assim na possibilidade de transtornos.
A esquiva, conforme define Cloninger e col., envolve uma tendência herdada para a inibição do comportamento em resposta a sinais de punição e frustração (pela ausência de recompensa).
O temperamento exploratório reflete uma tendência herdada para a iniciação ou ativação de um desejo de aproximação em resposta a novos estímulos, aproximação para estímulos de recompensa, evitação ativa de estímulos condicionados de punição e habilidade para esquiva de punição não-condicionada.
A dependência por recompensa reflete uma tendência herdada para a manutenção de um comportamento em resposta a estímulos de recompensa social. Pode ser observado como sentimentalidade, sensibilidade social, aproximação e dependência da aprovação de outros.
A persistência reflete uma tendência herdada para a manutenção de um comportamento apesar da presença de frustração, fadiga e reforço intermitente. Pode ser observada como diligência, determinação, ambição e perfeccionismo.
O temperamento envolve uma disposição significativa de emoções associadas às necessidades básicas do indivíduo, assim chamadas motivações primárias. Medo e raiva excessivos monopolizam a motivação e tomam a personalidade alterando sua percepção, aprendizado e comportamento de uma forma tendenciosa. Já as emoções (motivações) secundárias estão intimamente relacionadas ao desenvolvimento do caráter: emoções básicas como o medo, raiva, repulsão e excitação são transformadas em emoções secundárias, mais complexas e predominantemente positivas, como o amor, empatia, compaixão e disposição.
Uma motivação anormal deriva de duas ou três necessidades (emocionais) básicas excessivas associadas a ameaças à sobrevivência e integridade física. Assim, tal motivação “anormal” prejudica a transição e o desenvolvimento das emoções secundárias que promovem o crescimento - como seria o caso dos transtornos de personalidade.
PSICOBIOLOGIA
Como já mencionado, o caráter depende das funções cognitivas maiores da memória proposicional; tais funções são fundamentais para o processamento cognitivo das percepções sensoriais e dos afetos regulados pelo temperamento. Três traços principais de caráter foram distinguidos: auto-direcionamento, cooperatividade e auto-transcendência. Baixos escores em tais traços principais são associados aos diagnósticos de TPs.
O caráter amadurece em etapas progressivas, e o modo como isso ocorre no tempo dependem de condições herdadas do temperamento, tendências culturais e eventos aleatórios da vida. O desenvolvimento dos traços de caráter otimizam a adaptação do temperamento ao ambiente reduzindo a discrepância entre as necessidades emocionais do indivíduo e as pressões sociais.
NEUROTRANSMISSORES
Os neurotransmissores influenciam na modulação dos traços de algumas dimensões em indivíduos com transtornos de personalidade. A serotonina, por exemplo, tem um importante papel na agressão ou impulsividade: Hollander e col., estudaram pacientes com transtorno de personalidade borderline (TPB) após a administração de m-clorofenilpiperazina (m-CPP), um agonista serotoninérgico parcial. Observaram que a administração de m-CPP resultou em efeitos positivos significativos sobre os sintomas clínicos dos pacientes, sugerindo, segundo os autores, uma disfunção serotoninérgica no TPB. Já a dopamina seria importante na amenização dos sintomas psicóticos esquizotípicos e pode também contribuir para a origem do comportamento agressivo. A noradrenalina e a vasopressina podem também estar envolvidas na agressão e a acetilcolina pode influenciar uma sensibilidade ou labilidade afetiva subjacente.
A personalidade é descrita como uma “predisposição constitucional inata” (a hereditariedade e os componentes genéticos determinantes), e sobre isso, Bion, desde a década de 1970, vinha insistindo na existência de uma intensa vida psíquica fetal, possibilitada pelas primeiras experiências e sensações corporais, através das células embrionárias, dos fatores uterinos e dos estados físicos e emocionais da mãe.
Os autores frisam que, apesar da tal predisposição inata, a personalidade é principalmente passível de mudanças pelas influências ambientais, devido ao seu caráter de potencialidade: os potenciais da criança a serem desenvolvidos, dependerão, em grande parte, da responsividade da família e do ambiente.
Fonte:
Neurobiologia da Personalidade. FILHO, Décio Gilberto Natrielli. Temas e Prática do Psiquiatra V.32 N.62-63 P. 1-152 Jan/Dez 2002. São Paulo
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