A síndrome de Münchausen faz alusão a Karl Friedrich Hieronymus von Munchausen (1720-1797), barão alemão que lutou a serviço da Rússia contra os turcos e ficara conhecido por suas histórias fantásticas e ilusórias sobre a guerra e seus atos heróicos. O termo “síndrome de Münchausen” aparece pela primeira vez em Asher (1951), quando o mesmo relata pacientes que contavam consistentemente histórias falsas, com sintomatologia dramática e recorrente, sendo assim submetidos à investigação diagnóstica e tratamentos desnecessários.
Apenas em 1977 surge a classificação em síndrome de Münchausen por procuração (by proxy) por Meadow para demonstrar casos em que um dos pais, geralmente a mãe, simulava sinais e sintomas na criança, levando-a repetidas internações e exposição a exames e tratamentos perigosos, com o objetivo de conquistar empatia e atenção externas. Trata-se de uma forma extrema de abuso e maus-tratos infantil, associada à alta morbidade e mortalidade, gerando sequelas psicológicas irreparáveis.
Apesar de ser mais comum entre o par mãe-criança, idosos e deficientes físicos e mentais também podem compor a população vítima.
A patogênese da SM, de acordo com Pankratz & Lezak, deriva de uma disfunção do hemisfério direito; segundo King & Ford, foram constatadas anormalidades no SNC em 40% dos pacientes estudados (focos epileptogênicos, lesões cranianas de diversas etiologias, infecções prévias, anormalidades no EEG); já por Evandro et al., existe uma alteração no sistema hipotalâmico-pituitário-adrenal. É possível ainda, que histórias de trauma psicológico influenciem no desenvolvimento da doença, como privações e abusos na infância - os quais podem preceder transtornos mentais diversos.
A síndrome predomina em homens e está relacionada a traços de TPA. O indivíduo costuma ter contato ou experiências prévias com a área da saúde (isso explicaria o conhecimento incomum sobre terminologias e protocolos médicos).
A SM foi incluída na décima edição da Classificação Internacional de Doenças na categoria produção intencional ou imitação de sintomas ou disfunções, tanto físicas ou psicológicas (transtorno factício). A síndrome de Munchausen causada por terceiro (por procuração) é classificada na categoria T74.8 - outras síndromes especificadas de maus-tratos.
O Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5), em sua quinta edição, define distúrbio factício como aquele imposto a si próprio e ao outro.
Quadro 1. Critérios de diagnóstico para distúrbio factício imposto a si próprio:
A. Paciente inventa sinais psicológicos e físicos, induz lesões ou doenças; distúrbio factício
B. O indivíduo apresenta-se para outros como doente, incapaz ou lesionado
C. Paciente com comportamento fraudulento evidente mesmo na falta de compensações externas óbvias
D. O comportamento não é bem explicado pelo distúrbio, tal como delírio ou outra condição psicótica
Quadro 2. Critério diagnóstico para distúrbio factício imposto a outro:
A. Sinais e sintomas psicológicos e físicos, ou indução de lesão ou doença em outro, são fabricadas em associação com as fraudes identificadas
B. Indivíduo apresenta o outro (vítima) como doente, incapaz ou lesionado
C. Comportamento fraudulento é evidente, mesmo com falta de compensações externas óbvias
D. Comportamento não é mais bem explicado devido à lesão, tal como delírio ou outra condição psicótica
A auto-indução dos sintomas envolve também o uso discreto de substâncias psicoativas, com o objetivo de simular perturbações como insônia, alucinações ou letargia.
Em geral, os indivíduos com distúrbio factício têm dificuldade de criar laços familiares, manter-se no trabalho ou possuir quaisquer outros relacionamentos interpessoais estáveis.
Quadro 3. Distúrbios factícios mais comuns na clínica médico-cirúrgica:
- Dor abdominal ou recorrente em diversos locais
- Distúrbio metabólico inexplicável ou hidroeletrolítico
- Feridas com cicatrização difícil e sangramento em locais distintos
- Sangramento inexplicável
- Infecções repetitivas do trato urinário, hematúria e proteinúria
- Infecções repetitivas em locais diferentes
- Lesões genitais
- Crises convulsivas
- Lesão de pele e condições oculares repetitivas
- Enfisema subcutâneo
- Envenenamento não acidental em crianças, pacientes idosos ou deficientes.
A SM é de difícil tratamento e possui taxa de óbito de até 9%; até agora não constam terapias ou medicações específicas para a doença: deve haver ação conjunta e multiprofissional para que o diagnóstico e a comprovação da fraude sejam efetivados o mais breve possível.
Fontes:
Síndrome de Munchausen por Procuração: quando a mãe adoece o filho.
Ana Carolina Fernandes Ferrão
Maria da Graça Camargo Neves. 2013
Síndrome de Munchausen: relato de caso e revisão da literatura.
Ana Paula T de Menezes, Érica de M Holanda, Virgínia Angélica L Silveira, Kelma Cristina da S de Oliveira e Francisco George M Oliveira. 2002
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