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A Teoria do Apego (Bowlby e Ainsworth)

A Teoria do Apego data da segunda metade do século XX e foi fundada primordialmente por John Bolwby, psicanalista em busca do rigor científico e estatístico ausente em algumas das premissas de Freud, avaliando o trauma não por meio da retrospectiva, mas prospectivamente. Circunscreve-se nessas premissas a ideia do apego - vínculo mãe-criança -, abordado por Bowlby a partir da observação das patologias desenvolvidas por macacos Rhesus quando separados precocemente das mães e do comportamento atípico das crianças vítimas da Segunda Guerra, quando deslocadas pelo Estado para áreas livres de bombardeio e consequentemente tendo rompidas suas relações estáveis de família, grupo e lar. 


Bowlby baseava-se na noção evolutiva de que o apego - compreendido aqui como vínculo afetivo entre criança e cuidador - é não apenas uma inclinação natural, mas uma necessidade básica para a sobrevivência e segurança dessa criança, nascida em extrema vulnerabilidade fisiológica. A construção desses vínculos afetivos primordiais seria uma matriz para o desenvolvimento dos vínculos posteriores, sendo a teoria uma essencial contribuição científica à políticas de proteção da infância e adolescência.

A formação e manutenção saudável desses laços é não apenas necessária à estabilidade emocional da criança, como também à sua proteção enquanto reconhece o mundo ao redor.


“Sem a formação desse vínculo de apego, a criança poderia se distanciar demasiadamente dos adultos ao explorar o mundo, ficando exposta a inúmeros perigos. Os comportamentos de apego, são, portanto, complementares ao comportamento exploratório, pois permitem à criança experimentar o mundo em condições mais seguras.” (Melchiori; Gomes, 2011)


Freud argumentava que o afeto da díade mãe-bebê se justificava pelo fato de a mãe alimentar o bebê, crença não defendida por Bowlby, já que este supunha que o apego inicial se baseava na questão do imprinting - da proximidade e do contato íntimo fornecidos por todos os sentidos ainda pouco desenvolvidos do bebê (Hermann [1936] chama a isso “instinto de agarramento”, e posteriormente “engachamento à distância”, ou seja, o amor não-simbiótico).


Desde Darwin, o padrão evolutivo da formação de laços sociais é afirmado - e Bowlby argumenta que o apego primordial é que estrutura essa posterioridade. Importante frisar que a noção de apego se contrapõe à de dependência, já que a formação de laços responde à necessidades saudáveis, enquanto que a dependência não apresenta nenhuma função biológica e é compreendida como incapacidade de autonomia e simbiose.


Em 1944, dando continuidade aos estudos da década de 1930, Bowlby atenta para a vinculação da delinquência juvenil à experiências de abandono na primeira infância (minimizando o fator socioeconômico, embora saibamos que este pode preceder tais experiências), constatando que todas as crianças do estudo vinham de lares destruídos, e muitas haviam se mudado continuamente ao longo dos anos. Percebe então que a idade das experiências de separações e perdas é crucial para o desenvolvimento neurológico e emocional da criança, sendo o período após 12 meses o mais crítico (embora até os 12 anos experiências traumáticas sejam mais perigosas para o desenvolvimento). 


Embora Bowlby tenha recebido críticas por parte do movimento feminista, deve-se recordar que a relação do apego, imprescindível para a saúde emocional e intelectual da criança, não necessariamente precisa ser assumida pela mãe biológica, mas sim por um adulto apto a proteger, orientar e cuidar holisticamente dessa criança. A teoria do apego deve ter suas reiterações feministas no sentido de reivindicar políticas públicas que possibilitem a formação de indivíduos mais saudáveis - as quais podem se estruturar, inicialmente, em serviços de saúde mental que atentem para a opressão pelo gênero e suas consequências emocionais, descriminalização do aborto (e facilitação de procedimentos seguros), maior acesso ao processo de adoção, otimização do ensino escolar, avanços na igualdade salarial entre homens e mulheres, cursos e ensinos disponíveis para mães - e principalmente pais, com intuito de equilibrar as responsabilidades sobre a criação dos filhos - e medicina profilática afim de minimizar os números de gravidez precoce e indesejada. A teoria do apego busca divulgar o quanto as experiências da infância moldam as futuras, e como a construção de uma vida afetiva saudável depende de políticas voltadas não apenas para as crianças, mas também para essas mães e pais.


Bowlby rejeita a noção freudiana de que é a sexualidade que principalmente estrutura a subjetividade, deslocando essa base para a segurança e a familiaridade; para ele, é a necessidade que a criança tem de proteção que aos poucos cria o laço afetivo. Assim, a criança busca a proximidade numa base segura, protesta em situações de separação, busca imediata e instintivamente o cuidador em caso de perigo - cuidador esse que responde a uma especificidade do apego. 


Outra contribuição do psicanalista (1969) é a comprovação de que o desenvolvimento de um apego infantil saudável depende da sensibilidade e da empatia do cuidador - que, por sua vez, depende de ele mesmo ter sido exposto a apegos saudáveis. Assim, Bowlby introduz a ideia do ciclo de apegos positivos, sendo os mesmos causais na formação desses padrões


“Bowlby (1969, 1973, 1980, 1982, 1988) supõe, então, que o pro- cesso de internalização seja indutivo, ou seja, as expectativas em relação aos outros, construídas a partir de experiências no início da vida, generalizam-se, posteriormente, para vínculos estabelecidos com pessoas significativas nos mais diferentes ambientes sociais. Nesse sentido, a Teoria do Apego considera que crianças que vivenciaram uma relação de segurança e afeto com seus pais seriam adultos com maior probabilidade de repetir esse modelo em seus casamentos e de se sentirem mais felizes.” (Melchiori; Gomes, 2011)


Essa sensibilidade do cuidador corresponde à atenção aos sinais infantis, reconhecimento e interpretação coerentes das necessidades da criança, bem como a rapidez da mãe para responder às solicitações da criança (Ainsworth e cols., 1978). 

Mary Ainsworth, segunda maior contribuidora da Teoria do Apego, estabelece em 1978 três grandes categorias de apego: seguro, ambivalente e evitante. Por meio do experimento Situação Estranha, em que bebês de 12 a 18 meses são expostos à episódios interativos de breve separação da mãe e seu reencontro, Ainsworth caracteriza:

a) apego seguro: crianças que protestam quando separadas da mãe e depois a recebem com felicidade; usam do cuidador para explorar ativamente o ambiente e recorrem a ele em situações de perigo;

b) apego evitante: pouco protestam quando a mãe se retira e são indiferentes ao seu retorno; não a buscam para proteção;

c) apego ambivalente: apresentam comportamento raivoso e ansioso mesmo antes da mãe deixar o ambiente, e protestam intensamente quando em sua saída; ao que ela volta, esses bebês expressam ambivalência em buscá-la e ao mesmo tempo rejeitá-la, sendo também passivos, explorando pouco o ambiente.

Investigações ulteriores constataram um quarto padrão de apego, o inseguro desorganizado/desorientado (Main; Solomon, 1990): esses bebês demonstram comportamentos inconsistentes e contraditórios em relação à ausência e retorno da mãe; essa interação costuma derivar de cuidadores pouco sensíveis as crianças, o que comprova que relações de apego podem se desenvolver mesmo em relação à cuidadores negligentes, ou em situações que envolvem punições. Crianças vítimas de maus-tratos geralmente se alocam nesse quarto padrão, e apresentam alto risco de desenvolver psicopatologias. 

Ainsworth assegura que é possível mudança nos padrões de apego; crianças cujo apego se categoriza em ambivalente e inseguro são propensas a desenvolver patologias psicológicas e físicas, e os autores reiteram a necessidade dessas crianças de possuir vínculos estreitos não apenas com suas mães e pais, mas também com outros membros da família, reconhecendo mais cuidadores


Quanto à possibilidade de terapias, meta-análises comprovaram que a idade de 6 meses é propícia para o início dessas atividades, e, reforçando a inter-relação entre representações de apego dos genitores e as dos próprios filhos, as terapias buscam essencialmente, nesse momento, alterar as respostas dos cuidadores em relação às demandas das crianças.


Em relação ao período pós-parto, Da Rosa e cols. (2010) observaram que a sensibilidade da mãe reflete sobre o desenvolvimento sensório do bebê - e para a formação dessa sensibilização por parte da mãe, as condições de gestação e parto são cruciais. O desenvolvimento motor da criança responde aos estímulos da mãe. Dix (1992) apresenta a ideia de um ciclo de insegurança, em que mães inseguras (por diversos motivos e nem sempre puramente negligência) são pouco ou nada sensíveis e empáticas às necessidades das crianças, e essas, por sua vez, se tornam ansiosas, tensas e também inseguras. Madigan (2007) detectou que esse tipo de comportamento é muito comum entre mães adolescentes. 


Apesar disso, De Wolff e van Ijzendoorn (1997) defendem que a sensibilidade do cuidador não é o único fator que compromete o desenvolvimento infantil, e para isso trazem o conceito de mind-mindedness (“mente-mentalizante”), que distingue as duas dimensões do cuidado materno: sensibilidade quanto aos estados físicos e outra quanto aos estados mentais do filho. Trata-se da capacidade de interpretação das respostas sensoriais dessa criança ainda incapaz de verbalizar - a mãe confere, assim, uma base linguística para que a criança fale sobre os seus sentimentos e os alheios - chamada também de “função reflexiva” por Fonagy (2002). 


“Grienenberger, Kelly e Slade (2005) afirmam, então, que, quanto maior a capacidade reflexiva das mães, mais aptas elas estão para lidar com a instabilidade emocional das crianças sem se deixarem dominar por seus próprios medos e pela agressividade que essa instabilidade invariavelmente pode produzir” (Melchiori; Gomes, 2011)


A terapia de interação guiada (IG), desenvolvida inicialmente por McDonough (1993, 2004) nos EUA tem sido efetiva na abordagem familiar do apego; a IG é um procedimento de intervenção breve para a resolução de impasses familiares, visando suscitar uma maior reflexão por parte dos adultos.


A causalidade do apego saudável é explicada através do modelo funcional interno, o qual “...consiste na representação de si e, igualmente, na representação de si interagindo com uma pessoa significativa em um contexto com forte tonalidade emocional. (...) Ele também influi na maneira como um indivíduo antecipa a maneira como será tratado pelos outros e na forma como tratará as pessoas durante a vida. Uma vez estabelecido, esse modelo tende a persistir ao longo do tempo e a operar no plano inconsciente (Besoain; Santelices, 2009).” (Melchiori; Gomes, 2011)


Ou seja, a criança tende a padronizar a natureza dos cuidados recebidos e refleti-la nas suas funções cognitivas e sociais. A representação do mundo construída por ela coordena e regula suas atenção, percepção e memória, além de influir diretamente na organização do comportamento. 


Percebendo que o padrão de apego torna-se um atributo seu, e não apenas da relação, é possível concluir que o modelo funcional interno não é tão “interno” assim.  


Os avanços na neurobiologia possibilitaram o entendimento da neurobiologia do apego: o sistema motivacional descrito por Bowlby tem sua base no sistema dopaminérgico mesencefálico (e Núcleo Accumbens), o qual possui um papel essencial nos mecanismos que dão início à atividade motora que impulsionam o animal a buscar fontes de gratificação no ambiente.


O sistema dopaminérgico é inclusive sustentado por peptídeos como a oxitocina e a vasopressina - liberados em experiências sociossexuais tais como o sexo, o parto e a amamentação. É exatamente por ser modulado em momentos críticos do desenvolvimento humano que esse sistema é extremamente vulnerável aos estímulos ambientais.


O estudo de Knickmeyer e cols. (2008) concluiu que, no primeiro ano de vida, as interações com o cuidador ocorrem em um momento no qual o volume total do cérebro aumenta para 101% e o volume do cerebelo, para 240%. Esse crescimento depende das experiências infantis. É um ciclo: o desenvolvimento neurológico possibilita as expressões motoras e emocionais da criança, e é similarmente influenciado pelas mesmas - que podem não ocorrer em situações de estresse e abandono, comprometendo assim a estruturação cerebral. 


O fato de que os primeiros 12 meses são os mais vulneráveis às experiências negativas significa também que são igualmente vulneráveis às intervenções terapêuticas - as quais promovem a expansão do hemisfério direito, substrato biológico do inconsciente.  Por estar relacionado ao processamento das informações implícitas, o hemisfério direito regula a comunicação não-verbal - a qual Bowlby dota de extrema importância visto que as primeiras experiências (e portanto formadoras do apego) entre cuidador e bebê são essencialmente não-verbais.


Exemplo disso é a capacidade interpretativa-auditiva de crianças na faixa dos sete meses, capazes de distinguir entre tons de voz alegre, neutro e raivoso; nesse ínterim, verifica-se o quão prejudiciais para os filhos são as psicopatologias que afetam a mãe, como a depressão (e seu sintoma de anedonia). O sistema de apego é, ainda, regulado pelo sistema órbito-frontal (relacionado à respostas afetivas a partir de sentidos básicos como visão e audição), associado ao SNA.


Na primeira infância (0 aos 3 anos) ocorre a predominância do hemisfério direito, por ser um período essencialmente intersubjetivo; por esse motivo, o contexto social influi e afeta o funcionamento do cérebro:


“Verifica-se hoje, por exemplo, que relatos de indivíduos com comprometimentos severos nas relações de apego aos pais estão diretamente associados a organizações cerebrais ineficientes no enfrentamento do estresse. Em específico, traumas emocionais na primeira infância – principalmente abuso sexual e negligência parental – interferem na organização dos circuitos límbico-autonômicos, tanto em nível cortical, quanto subcortical, do hemisfério cerebral direito, inibindo sua capacidade de lidar eficientemente com estímulos estressores (Schore, 2001, 2002). Além do que, toda experiência traumática, intimamente relacionada aos vínculos de apego estabelecidos na infância, é codificada por estruturas cerebrais do hemisfério direito na forma de memória implícita, a qual, em etapa de desenvolvimento posterior, se expressa inconscientemente em modelos funcionais internos inseguros (Schore, 2000)” (Melchiori; Gomes, 2011) 


Compreende-se então que a neurobiologia do apego compromete funções do hemisfério direito, tais como: regulação de estimulação no Sistema Nervoso Central e Autônomo, recepção, expressão e comunicação de afetos positivos e negativos, processamento de informações novas e de estímulos inesperados, detecção de perigo, regulação de componentes simpáticos e parassimpáticos do Sistema Nervoso Autônomo, que geram os aspectos somáticos das emoções envolvidas no sistema de resposta ao estresse, sustentação da atenção e controle dos impulsos. Experiências traumáticas na infância (por ser o período mais intenso de plasticidade cerebral) interrompem e alteram essas funções. 


Interações afetivas na infância são ainda responsáveis pela homeostase do SNA, que coordena o funcionamento de órgãos vitais do corpo humano, como o coração. Assim, falhas nas interações de apego levam a alterações de neuropepídeos (oxitocina), neuromoduladores (catecolaminas) e neuroesteroides (cortisol) críticos para o desenvolvimento cerebral, enquanto que experiências de apego seguro apresentam efeitos duradouros no desenvolvimento do eixo hipotalâmico-pituitário-adrenocortical, responsável pela regulação de respostas ao estresse.


Fonte: A teoria do apego no contexto da produção científica contemporânea / Adriana de Albuquerque Gomes, Lígia Ebner Melchiori. - São Paulo: Cultura Acadêmica, 2012. 396p.


https://repositorio.unesp.br/bitstream/handle/11449/109169/ISBN9788579831898.pdf







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