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A análise psicológica de Hitler, por Langer (1943) - PARTE 2

No último capítulo do livro de Langer, VI. Seu provável comportamento no futuro, o psicólogo lista algumas possibilidades, entre improváveis - Hitler pode morrer de causas naturais, pode pedir asilo político num país neutro, os militares alemães podem se revoltar e prendê-lo, ou pode cair nas mãos dos americanos - e possíveis - pode morrer em batalha, pode ser assassinado, pode enlouquecer. Entretanto, a mais defendida é que Hitler suicidaria, o que de fato aconteceu. Ele já havia ameaçado isso varias outras vezes e confessara a Hauschning que, “na hora do perigo supremo, se sacrificaria pelo povo”. 


O fato de os judeus terem sido escolhidos como bode-expiatório do nazismo ainda divide historiadores e aponta para varias causas; no século XIX as ideias do darwinismo social estão em vigor, e na década de 1930 o preconceito alemão contra os judeus já fora construído; as acusações giravam em torno de motivos econômicos e religiosos (judeus eram acusados de entregar Cristo aos romanos). Hitler ficou obcecado pelas ideias de pureza racial, que enumeravam não apenas judeus como destruidores das raças superiores, mas também ciganos, deficientes físicos e mentais, homossexuais. O anti-semitismo de Hitler não apenas era real como movimentava as propagandas, porque já existia passivamente na mente alemã do século XX, e tivera sucesso em encontrar um culpado físico (e portanto passível de ser eliminado) para todos os males do país.


As evidências apontam para um possível transtorno mental em Hitler, que, apesar de enrijecer sua capacidade de pensamento, inflamar suas profundas inseguranças e alternar seus estados de ânimo, não comprometia de todo sua capacidade de julgamento. Devido à antiguidade da análise e da alteração nas terminologias, não se entende se a opinião de Langer, de que Hitler era um “psicopata neurótico, beirando a esquizofrenia”, indicaria traços de TPA ou de transtorno neurótico, ou se a esquizofrenia mencionada seria responsável por sintomas psicóticos (embora saibamos que delírios e alucinações eram parte da vida de Hitler). 

Como Klara, sua mãe, perdera cerca de três a quatro filhos em decorrência de gravidez turbulenta e doenças nos primeiros anos de vida dos filhos, questiona-se se a mesma apresentava algum problema reprodutivo e se isso pode ter afetado o desenvolvimento de Hitler de alguma forma; acredita-se que ele possuía, ainda, duas irmãs com transtornos mentais e teria ele mesmo tido um parto complicado e uma saúde frágil quando pequeno. O ambiente de seus primeiros anos era violento e pobre: eram cinco crianças e um pai alcoólatra e profundamente agressor contra toda a família. A ausência emocional do pai e suas frequentes surras podem ser, segundo Langer, a origem das inseguranças e dos complexos que lhe seguiram durante toda a vida. Pouco esforçado academicamente, não obteve sucesso em carreira intelectual ou artística. Perdera os pais antes da idade adulta. Fora de fato uma criança e um adolescente problemático que não suscitava carinho nos outros; somado a isso, talvez em razão do transtorno e do medo patológico, fora incapaz de construir laços afetivos, voltando seu emocional para assuntos políticos e bélicos, afim de defender seu fanatismo por grandes ditadores e pelo ideal de nação que construira internamente. 

Crescera entre os delírios de ser um enviado da divina providência (e por isso sobrevivera aos irmãos mortos e à sua frágil saúde quando criança), e no exército isso se reforça quando é notado como exímio orador. 

Após a derrota na primeira guerra, o povo alemão estava desacreditado e vulnerável; assim, usando ensinamentos da psicologia de grupo, Hitler conseguira despertar os sentimentos mais primitivos e mesquinhos presentes em todo alemão comum, destituindo-lhes de consciência própria e justificando tudo pela ascensão do país; Hitler apelava para o emocional do povo, conferindo-lhes amor-próprio e orgulho. 

Hitler não foi criado sozinho, nem tampouco criou sozinho o nazismo; ele só conseguiu o poder de que gozava porque seus absurdos tinham raizes no povo para quem governava. Entretanto, faz-se necessário admitir que o mito construído em torno de Hitler era tudo que os alemães conheciam dele, e pouco sabiam da realidade brutal do homem divulgado como um semideus. Os campos de extermínio foram erguidos sob a desculpa de serem locais de trabalho e de restituição moral, e a maior parte das atrocidades do genocídio só foi conhecida após o fim da guerra, por meio da documentação de americanos e russos. O clima de terror somado ao preconceito naturalizara a violência, e desde criança convivia-se com os produtos da guerra. Sem dúvida isso insensibiliza a médio e longo prazo. Os relatórios sobre os campos e sobre os que para lá foram mandados eram escassos e logo eram destruídos; antes da chegada dos americanos a maioria das provas foi queimada, e tentaram, ainda, livrar-se dos sobreviventes. Quando vieram à tona os boatos e as fotografias, muitos alemães quiseram acreditar que se tratava de uma alienação contra o grande Führer, e que os corpos esquálidos e quase inumanos em covas rasas na verdade eram manequins nus. A consistência do horror era um choque mesmo para aqueles que se diziam adeptos do nazismo. Mas que nunca se esqueça que Hitler não ergueu seu império de cadáveres sozinho; o ódio individual cria uma pessoa odiosa e incômoda, mas o ódio coletivo é capaz de criar um genocídio moral e físico, e ainda defendê-lo. 

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